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Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E prometo, você vai gostar.




Conto de Tânia Souza

  Ana. Um nome simples para uma garota comum, passos ecoando pelas ruas de uma cidade esfumaçada e suja. Ao mundo, a imagem de uma garota que vaga na noite escura e conta outra sina: menina de família, comportada. Ana se arriscando por lugares obscuros. A quase inocência costuma ser um atrativo interessante... Você me olha e vê uma moça que estudou, mas não muito; deduz que vou me casar com um bom rapaz e viver em tédio, que devo ser apenas mais uma Ana e, quem sabe um dia, esposa, mãe, avó. Talvez o que veja seja apenas uma boa menina, com vontade e desejo de se arriscar. Ana quase pecadora.

       Os seus olhos e os olhos do mundo não me vêem: não como uma andarilha; não essa criatura perversa, lasciva, sedenta de sangue e vingança; não como uma moça que se esconde nas sombras; não uma arma. Não como de fato sou.

       Mas é agosto. E devo pagar minha dívida. Agosto tem cheiro de sangue, de carne e desejos inconfessos. Quando agosto chega, desperto em minha sina ancestral. Sinto então os sonhos mais secretos de cada um e meus seios estremecem na ânsia de uma missão que outrora me causou tanta dor. Quando agosto chega, é hora de caçar.

       Meus saltos ecoam na calçada e os olhos mortiços da noite me seguem. Essa cidade tem cheiro de fuligem. Eu gosto do cheiro infecto destas ruas. Mas não devo ficar aqui por mais tempo. Vejo a cidade uivando entre as luzes e sombras... Os passos dessa gente carente, perdida entre concreto e metal retorcido, olhos embaçados com tanta sede e vicio me buscam e ainda que não saibam, me imploram a cada dia. No entanto, você foi o escolhido. Sinto sua alma percorrendo-me e suas paixões me renovam. Eu sou a faca, a arma apontada para seu peito, a lâmina que vai dilacerar sua carne. Mas ainda assim você sorri e vem a mim. Entregue. Dócil.

       Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E depois, bem, depois verei por onde vou... Não é minha escolha matá-lo. Nunca escolho e aprendi a não negar, a dor é muito forte. Eu não gosto da dor. Bem, talvez goste, um pouco. Afinal, é agosto e para meu gosto, o seu. É o tempo de caçar e pagar a minha divida. É agosto.

       Você tem os olhos do mundo, agora fixos em meus lábios e, olhando para minha boca, ri quando digo que sou perigosa. Sim, já lhe disse que sou perigosa. Não gosto de mentir. Você sorri e não acredita, acariciando minha face. Você vê apenas a beleza que Ele me deu. Toca em meus cabelos vermelhos, tão preso em meus olhos verdes, bonita sim, quase nem creio no espelho. Bonita e letal.

       Eu bebo seus gemidos quando minhas unhas rasgam sua pele e ainda assim, me implora por mais. E quando minha língua lasciva sorve suas lágrimas, seu sangue sacia minha sede em sua carne morena. Enfim, por alguns dias você é meu, totalmente meu. Pois Ele espera por você.

       Quem eu sou? Não importa baby, sou um anjo de asas dilaceradas. Alguns me chamam infâmia, insanidade, epidemia, desgraça, peste, raiva, desgosto. Mas meu nome é Ana. E carrego comigo paixões das almas incautas dos que cruzam meu caminho. Almas que Ele escolhe e cabe a mim, arrebatá-las. Vago pelas noites de cidades que nunca dormem, entre canções e baladas desesperadas, criaturas enlevadas por substâncias tão surreais quanto os mundos de pesadelo onde vivi. O tempo não existe. De uma pequena vila em um século perdido quando degustei pela primeira vez a hóstia rubra de demônios insanos até o ultimo dia da existência da humanidade, sereia serva fiel de somente um senhor. E por Ele sou Ana, a imortal, por Ele, meus passos arderão pela eternidade. É tão breve e doce o pagamento para tão longo legado.

        Meu nome é Ana. Eu vou matar você. E prometo, você vai gostar.



 Fim
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Insana Paixão





Ele estava morto, eu sabia, pois com mãos trêmulas cortei-lhe os pulsos, seguindo com os dedos as veias que apareceram enquanto ele fazia força para libertar-se; sabia com o gosto que ficara em meus lábios depois de beijar aquelas mãos que tanto amei, sabia quando lembrava-me do cheiro de sua pele enquanto minhas lágrimas misturaram-se ao sangue que derramava-se. Sim, estava morto. Eu o matei. 

Estava amarrado numa cadeira, não fora difícil trazê-lo até aquele galpão abandonado com o pretexto de uma despedida, a verdade é que os momentos que antecederam a sua morte foram de intenso prazer para mim e para ele. Mas quando viu que o prazer acabara e apenas meus instintos mais cruéis permaneceram, o medo tomara conta de meu amor. Desesperados, seus olhos negros e sombrios pediam-me que o soltasse. Jamais pude dizer-lhe não, assim, tirando-lhe a mordaça, colei minha boca na sua uma última vez, mordendo seu lábio inferior com intensidade. Mais uma vez, senti o gosto de sangue. Fora a primeira vez que eu sentira este sabor, esta febre, toda a euforia e toda a essência de meu amado.

Pouco me lembro dos momentos seguintes, apenas da lâmina ferindo a pele morena, do vermelho rubro encher meu olhar e, finalmente, provar o mais íntimo de meu amado, seu sangue não seria desperdiçado, meus lábios sugaram frenéticos o pulso do amante que iria deixar-me, desta vez, para sempre. A palidez de seu corpo sem vida já não me perturbava, arrastei-o sobre um pedaço de cartão e finalmente, joguei-o no lago imundo que jazia abandonado e poluído. 

Parti sem olhar apara trás, apesar de ter nos olhos lágrimas por meu amor perdido, sentia em mim o mesmo frenesi que desfrutara outrora em seus lábios. O estômago pesava-me, tive que parar no caminho para vomitar toda aquela paixão rubi. Mas o bem estar persistia. Por semanas estive bem, nem mesmo vendo o desespero dos que o buscavam nada sentia. Ele era meu vizinho, casado, três filhos. Mas antes de ser casado era meu amante, me fizera sua aos meus quinze anos e por anos fui feliz com ele. Entretanto, nos últimos dias ele resolvera deixar-me, iria embora para outro país e a dor da despedida fora demais para mim. Disse-me que já não me amava. Por isso o matei, por isso eu o tinha agora percorrendo as minhas veias. Deixei a faculdade, não entrei mais em contato com meus pais, nada fazia sentido além de sua presença dentro de mim, pois meu bem estar persistia... até que uma noite eu senti sua ausência. 

Acordei sentido o corpo em febre, a dor do que fizera dilacerava minha alma. Ofuscada pela angústia, caminhei a esmo, até encontrar o caminho que o traria de volta. Quando a nuvem de rancor que obscurecera meus olhos se fora, eu estava novamente no velho galpão; na mesma cadeira, um jovem de cabelos azuis e piercings espalhados pelo corpo estava nu, numa palidez mortal. Senti nos lábios o gosto do sangue. E para meu delírio e suprema magia, eu sentia sobre mim o poder daqueles olhos negros. Virei-me lentamente para a porta, Ele estava morto, mas estava ali. A boca convidava-me, meus olhos estavam fixos nos seus lábios que pareciam hipnotizar-me, enquanto tornava-se cada vez mais visível. Aproximei-me lentamente e meus lábios rubros de sangue tocaram os seus, num beijo devasso, lascivo, insano. 

Vês? Quando aconteceu a primeira vez não planejei, apenas obedeci à saudade que torturava e despedaçava meu juízo. Depois? Depois tornou-se meu vicio, meu fascínio, minha sina, perdi a conta de quantos foram comigo ao velho galpão, moças, homens, jovens ou maduros, todos seguiam-me pela promessa de prazeres indizíveis e sim, eles o tinham, também eu sentia prazer em satisfazer aquela paixão que os tomava, para então, tomá-la de volta para mim enquanto sorvia o sangue que gotejava dos pulsos mais diversos possíveis. E em seguida, meu amor voltava, deleitava-me em seus lábios, em seus carinhos, a morte não nos separara. 

Assim surgiu A vampira, uma assassina temida, manchete de vários jornais. Mas eu não sou uma vampira, apenas através do sangue posso mais uma vez sentir a presença do meu amor. Você não faria o mesmo? A sede foi conseqüência, mas a imprudência tomou-me e agora estou aqui. Os jornais estamparam diversas e exageradas manchetes: Encontrada assassina vampira! Vampira dormia em mar de sangue enquanto vitima agonizava! Estudante de 24 anos enlouquece e mata 14 pessoas. Não estou louca nem nunca estive, mas quiseram julgar-me insana. A minha prisão? Encontraram-me nua, a pele coberta de sangue, adormecida, ele já havia partido. O resto você conhece, foi um dos que mais escreveu sobre mim.

Apenas devo avisá-lo de que saciar sua curiosidade terá um preço, devo avisá-lo de que a sede voltou e só o que me interessa é saciá-la, para que mais uma vez eu possa vê-lo, por isso, perdoe-me, mas devo dizer-lhe adeus. 

Neste instante, um silêncio espalhou-se, seguido por um grito de dor. O que ouvimos ali foi aterrorizante, dir-se-ia que uma fera atacava, resfolegava e exterminara com a vida daquele que fora um excelente jornalista, daquele que em nome de uma matéria, ousara subornar, intimar, convencer para finalmente ter acesso a ela. Daquele cujos débeis gemidos apenas insinuavam-se na gravação... um clique e era o fim. O silêncio tornara-se denso no salão. As pessoas falavam em sussurros, a ansiedade parecia insustentável quando finalmente o chefe de policia chegou ao palanque e as perguntas inundaram o recinto. Finalmente viera a tona a gravação que testemunhara um dos casos mais chocantes da ultima década, uma serie de crimes misteriosos, nefastos, mórbidos. O clique do botão sendo desligado calou não somente uma voz melodiosa, pois o horror das palavras gravadas permaneceram conosco. Uma voz masculina que dizia em tom de adoração: 

- Estou de volta meu amor! Beije-me com teus lábios rubros devolvendo-me a vida!


Um Conto de Tânia Souza

Nota da autora: este conto é uma obra de ficção, não traduz minhas crenças ou opiniões; qualquer semelhança com nomes, fatos ou pessoas reais é mera coincidência.
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Dom




Uma densa neblina cobria o vilarejo naquela madrugada fria. A garoa fina aprofundava a sensação de desamparo na moça que apressadamente cruzava a vila. As batidas na porta foram suaves, mesmo acordado, padre Bernardo assustou-se e não demorou a abrir.  A jovem, conhecida por muitos como a Última, estava encolhida dentro do poncho de lã, tremendo de frio, e ergueu os olhos assustados:

 — Eu vi, padre Bernardo! Eu vi a desgraça na vila, eu vi a morte...— Os lábios tremiam, apesar do capuz cobrindo os cabelos. 
        
          — Calma minha filha. Entre! Você vai congelar ai fora. O que aconteceu?  
         
         — Os olhos são azuis, os olhos da morte...   O senhor também deve partir padre, não pode ficar, eu...—  A moça não se movia, até que o velho homem abraçou os ombros frágeis, levando-a para dentro.

        — Esse é o meu lar Madeleine, não verei outros caminhos enquanto respirar. E aqui também é o seu lar, onde estão os restos de sua mãe, de sua avó. O povo sempre dependeu do Dom.— Enquanto falava, padre Bernardo a conduziu para um cadeira ao lado do velho fogão a lenha, onde uma caneca de louça, encheu-se de chá aquecendo as mãos da moça, que lentamente sorveu a bebida.

         Ela balançou a cabeça, repetindo as palavras que a assombravam, os olhos perdidos nas chamas:

— Eu vi o mal, ele tem olhos azuis...— A respiração estava mais calma, e a moça tirou o capuz de lã, ainda trêmula, sentou-se perto do fogão que aquecia o ambiente, fitando as brasas, mas de repente, assustou-se, e desviou os olhos. Os cabelos avermelhados refletiam a luz, caindo em cascatas pelas costas.

         Padre Bernardo observava a jovem, pensativo, murmurando consigo que aquilo não estava certo.
 — Você não deveria andar sozinha, minha filha, já faz um ano que sua avó se foi, mas temo por sua segurança naquele lugar abandonado. Poderia pensar em um casamento, o jovem...

         — Não padre, sabe que não posso, o Dom é ao mesmo tempo uma benção e maldição que carrego. O destino dele não cruzará com o meu, ele merece uma boa mulher, filhos, eu não os terei jamais...

         — Não queira ser dona do destino filha, o seu dom...

         — Meu dom é uma maldição! — A moça voltou a afirmar, mas interrompeu-se quando o padre sentou-se ao seu lado com um pequeno gemido.

         — As suas dores padre, eu posso ajudar. — Tocou suavemente a testa do velho padre, que suspirou aliviado, mas desviou-se das mãos delicadas.

         — Não Madeleine, as dores agora são mais constantes, elas me acordaram hoje, e há muitas noites não durmo, mas são parte do meu destino, devo apenas aceitar.— Era o que o semblante sereno revelava, aceitação e sofrimento.

         — Eu conheço algumas ervas padre, deixe-me cuidar de você, é a única família que tenho...

            —Não!— A voz era suave, mas firme. — Não devo combater minha sina, só lamento não mais ter forças para conduzir meu rebanho, soltos nas madrugadas. — Um sorriso suavizou a ironia. —Agora que está mais calma, diga minha filha, que maléfico pesadelo lhe fez cruzar a vila nessa neblina, a esse horário? Sabe que é arriscado...

         Madeleine quase sorriu, desde os onze anos acostumara-se a andar pela cidade, ou em busca de ervas, ou levando conforto e não raras vezes, a cura ao povoado. Aprendera com a avó o segredo das plantas e das visões, um dom que nem sempre entendia, mas que jamais negava sua força. O silêncio aquecia a pequena cozinha e aos restos de lenhas crepitavam no fogão, quando a jovem suspirou.

         — Não foi um sonho. Tive uma visão, e apesar das névoas, foi o mal que ela trouxe que me fez correr ate aqui, padre. Eu vi a maldade, vi o povoado ardendo em ódio, a desgraça espalhando-se pela vila,  e.. e, de algum modo, serei a culpada, por isso tenho que ir embora, deveria deixar a vila ainda hoje, mas... agora sei que já não vou...

         Depois de dizer essas palavras, num repente a moça levantou-se, caminhando em direção a porta, abrindo-a antes que o som das batidas ecoasse.  Parado na soleira da porta, um menino pedia a ajuda do padre, a mãe estava sentindo dores fortes, mas ao ver Madeleine, ele sorriu, puxando-a pelas mãos. Antes de sair, ela ainda olhou para trás, um olhar triste, e disse, em uma mescla de aceitação e desamparo:      — Agora sei que já não vou... — E seguiu com o menino. Nuvens escuras permitiram que o sol nascesse tímido naquela manhã.

         Quase dois anos se passaram após essa noite fria, quando uma nova manhã, desta vez ensolarada e radiante, dava a vila uma imagem de insana beleza frente à dor e a angústia, a única realidade do povo que ali vivia. Aos poucos, a rua despertava, mas o silêncio assombrava aos poucos que varriam os cantos e preparavam-se para mais um dia de trabalho. Quando de longe ouviram-se gritos, a densidade da quietude enfim se quebrou. Uma cantinela cruel e perigosa ecoava, cada vez mais perto:

         —Bruxa! Bruxa!

         A pequena multidão carregava a garota pelas ruas, e quando ela caía, não esperavam que se levantasse. A cada rosto conhecido, ela implorava por ajuda, mas os olhos se desviavam, alguns em sussurros, afirmavam suspeitas antigas, outros benziam-se e juravam tê-la visto dançando nua no riacho, carregando animais estranhos pela noite... e enquanto os gritos ecoavam pela vila, por mais que Madeleine se debatesse, os braços que a agarravam eram muitos, ninguém a ajudava.

         — Meretriz, morra! Queime-a!
         — Queima! Queima! — Era o que se ouvia da turba enraivecida.

         E quando finalmente caiu sem forças, o corpo frágil foi agarrado, e Madeleine arrastada pelo vilarejo, seus pés ardiam arranhando-se pelo chão, os pedregulhos ferindo a pele. Ao chegaram ao centro da vila, em frente à loja do ferreiro, a pequena e raivosa multidão parou e a moça foi jogada ao chão frio. Enquanto um círculo fechava -se ao seu redor, ela repetia:
— Eu não tenho culpa, não é minha culpa... - O rosto outrora tão bonito estava sujo e arranhando, o barro cobria quase toda a pele clara, e o vestido rasgado deixava entrever o corpo que a jovem encolhida tentava cobrir da melhor forma possível.

         A sua frente, viu o rosto duro de Samantha e implorou piedade, mas a inveja de tantos anos endureceu a face da moça que outrora fora sua amiga, e agora voltava às costas a Madeleine e trocava olhares com o homem loiro que guiava a sinistra procissão.

         — É dela a culpa de nossa desgraça, a noiva do demônio está mentindo... — Era a voz retumbante do clérigo que irradiava-se. Os cabelos loiros grudados na testa, o suor escorrendo, os olhos furiosos faziam com que as pessoas abrissem passagem para aquela figura impressionante.

         — A seca não está nos castigando? A chuva não vem, a água do poço não está envenenada?
           — Sim! Gritava a multidão, — Vamos morrer de sede!
           — O gado não morre de fome no pasto?
           —Sim!— E a cada pergunta, o fanatismo crescia, instigado pelas palavras veementes do louro Raul.

         Madeleine tremia, os cabelos avermelhados sujos de barro, as pessoas gritando a sua volta.
 — Meu gado morreu, e não temos mais leite, meu Jhon morreu de fraqueza — Murmurou uma senhora, cabelos cobertos por um lenço escuro, sinal de luto, — Se ela é a culpada, devemos fazê-la parar. Antes que leve meu neto, ela deve parar agora! — Gritou a mulher. 
         Madeleine arrastou-se em direção a velha senhora, a quem muitas vezes servira chá e cuidara dos reumatismos. 
— Não Maria, você é boa, lembre-se, minha avó era sua amiga, sempre cuidou de seus filhos —.  Mas a mulher abaixou os olhos 
  
— Eu... o pequeno precisa de leite Madeleine, não sei mais o que fazer...
           
         — Parem! — Gritou Raul, vendo algumas pessoas sensibilizando-se diante das palavras da moça. — Não escutem a voz doce do demônio, ela quer enfeitiçar-nos, é de uma família de bruxas, a velha já está com os demônios, agora é sua vez, amante do diabo, não vai nos destruir, Deus nos iluminou.  Então não vêem irmãos, que a vila afunda em doença e pobreza?
        
        —Simmmm!— Uivou a pequena multidão.

        — Deus me enviou para limpar o mal, para recomeçarmos sem bruxarias, sem feiticeiras. Eu tenho a cura meus irmãos, aceitem e o mal irá embora.
         Todo sofrimento daqueles dias de seca e privações crescia na mente do povo ouvindo a voz do pregador. Fora um ano difícil, de muita provação, um estranho mal assolava a vila, alem da fome, a morte e a doença estavam espreitando pelas ruas, pela casas.  Três crianças haviam morrido, um menino ainda no ventre da mãe e outro que nascera deformado e morrera em seguida. No entanto, foi a água envenenada do poço, causando muitos males a quem a consumia que levara o povo ao clamor, incitado pelo clérigo. Aos gritos, seguiram até a casa da moça. Madeleine separava ervas medicinais quando foi brutalmente agarrada pelos cabelos pelo homem que se dizia emissário de Deus. “Pequena meretriz” ele murmurara, “Bruxa!”, foi o seu grito para o povo.
         Para Madeleine, aquele povo era também sua família, desde que a avó se fora, continuava com o seu dom, mesmo sabendo que um dia este lhe causaria dor. Estava em suas mãos o dom da cura, mas as visões que a atormentavam desde menina estavam caladas por uma estranha opacidade nos últimos anos. Lembrava-se agora dos olhos azuis que uma madrugada fria lhe revelara, reconhecendo-o no ódio presente nos olhos do novo clérigo, que desde que chegara à vila estivera perseguindo-a. Ao ver que não conseguiria o que desejava, e que a moral da moça era irredutível, o homem começou uma guerra calada, plantando a semente da discórdia e da inveja, sempre atormentando-a com desejos que Madeleine repudiava. Assim, a moça resolveu mais uma vez clamar por justiça, apesar dos joelhos feridos, levantou-se e falou ao povo a sua volta:
         — Vocês me conhecem desde criança, eu cresci aqui, mestre Ramão, com suas filhas, por favor... — Mas o homem fechou os olhos e começou a rezar.   Uma outra jovem mulher, gorducha e baixinha, tinha os olhos baixos, ao lado do marido de cara feroz, mas ergueu os olhos quando o ensandecido Raul pegou-a pelo braço:
 — Diga quem foi, diga Dona Joaquina, quem lhe deu o chá que roubou a vida do seu bebe ainda no ventre, diz...— As lágrimas caiam sem parar pelo rosto de Madeleine quando via as pessoas acusando-a. Amigos, pessoas a quem ela, a mãe e a avó sempre cuidaram.
 — Não! Não foi assim, ele já estava mal, eu só quis ajudar, a senhora sabia... Um soluço a interrompeu. 
         — Mentira, você matou o meu filho!  — Gritou o homem ao lado da mulher... — Bruxa... matou para devorar a sua carne ainda no túmulo, matou, matou meu único filho... — Abaixando-se, juntou nas mãos uma grande quantidade de barro. Em desespero, a moça implorou ainda:
 — Do-dona Joaquina, não, por Deus me ajude, sabe que não é verdade, a senhora sabia... — A voz foi interrompida pelo monte de barro que sujou ainda mais o vestido e os cabelos de Madeleine. A risada mórbida de Raul completava o quadro de crueldade e dor.
         — Você enfeitiçou a todos, mas Deus é bom, e descobrimos sua maldição. —  Os olhos azuis brilhavam de ódio e maldade, enquanto ele gritava com a multidão ensandecida: —Morte a bruxa! Morte a bruxa!
         
           Quase todos os moradores da pequena vila estavam ali, com exceção de algumas crianças, que pareciam ser as mais atacadas pela peste. O grupo de roupas escuras e ódio no olhar via na jovem caída a chance de mudar a existência de sofrimento.

         — O sangue inocente não deve ser derramado! — Um grito interrompeu temporariamente a acusação. E de repente, a multidão começou a afastar-se, dando passagem a um bramido desesperado, era a voz do velho pároco — Madeleine é uma criatura de Deus — O padre trêmulo e doente olhava acusadoramente a multidão, e vociferava, com uma voz estranhamente forte, olhando nos olhos daqueles a quem conhecia a cada pecado, a cada fraqueza cometida — Voltem para suas casas, deixem-na! Suas crianças esperam, vamos, estão tomados pelo ódio. Deixem-na! — Dizendo essas palavras, padre Bernardo aproximou-se de Madeleine, que apavorada, pedia que ele fosse embora. 
         
                O povo calado, esperava, olhando ansiosos para o novo clérigo, o jovem de faces angelicais que pregava a paixão e a contrição total. Diante da voz do ancião, afastado dos serviços da igreja pela saúde frágil, o corpo tomado pelo câncer, mas cuja autoridade era inquestionável no povoado, aguardavam. Olhando aquele que se intitulava emissário divino, o velho pároco afirmou: 

— Você está endemoniado irmão Raul, cobiça a jovem, mas ela não cedeu aos seus caprichos, deixe-a, não aumente ainda mais os seus pecados, ainda podemos arrumar essa confusão...
         
           A face de Raul contorceu-se enquanto gritava: 
         
            — Blasfêmia! Não ouçam, ela o enfeitiçou também, eu a vi meus irmãos, ela dança nua na igreja e debocha da cruz! E ele gosta, está enfeitiçado e agora vem defendê-la, vamos, segurem-no. Deus me enviou para salvá-los, não duvidem, vamos irmãos. Ou querem que a morte os espere em casa? Querem que ela entregue as suas crianças ao demônio?
         
           Diante dessa última sentença, alguns homens tentaram imobilizar o velho padre, arrastando-o para dentro da loja do ferreiro, no calor da luta, o velho padre caiu pelo solo, e uma mancha rubra foi tragada pela terra. Um fio de sangue escorreu pelos lábios murchos.
           
           — Nãoo! — O grito de agonia de Madeleine percorreu o povoado, enquanto tentava correr para aquele a quem considerava um pai. Mas os braços de Raul a seguraram.
        
           — Mais um inocente morreu por causa da bruxa, mas agora ele esta livre dos malefícios da sedução irmãos, a doença foi um aviso que padre Bernardo ignorou, não vamos deixar que outro aviso seja ignorado. A bruxa deve ser marcada, tragam o ferro abençoado! 
         
            Raul afastou os cabelos grudados na testa, com um sorriso satisfeito quando mestre Ramão aproximou-se como o ferro em brasa em forma de cruz, rezando fervorosamente com os lábios semicerrados, e muitos braços agarraram Madeleine, segurando seus cabelos vermelhos. 

 Quando o ferro tocou a pele suave, todos esperavam pelo seu grito de dor, mas o que ouviram foi um estranho rumor que percorria a terra seca, e raios começaram a cair por todo lado, um lastro de fogo invadiu as plantações de milho ressecadas. Alguns correram em direção à plantação, enquanto o medo invadia os olhares dos que ficavam. A pele de Madeleine continuava intacta, apesar do pavor nos olhos castanhos. 
         
             Os olhos de Raul escureceram-se, mas ainda assim, ele tornou a aproximar o ferro da testa pálida, e mais uma vez, a pele não queimou. Duvidando do que via, quis tocar a cruz em brasa, mas a sua pele chiou, num queimado forte. A dor da queimadura o fez jogar a cruz para longe. O povo começou a murmurar, temeroso da ira divina.   Mas Raul, enlouquecido, apanhou a pequena faca que carregava, e olhando para as pessoas ali reunidas, reafirmou: 
         
              — É o demônio, não Deus! Não temam seus simplórios! — E avançou em direção a moça, mas antes que chegasse perto, o céu se abriu com um estrondo, e quando Raul virou-se em direção aos céus, os olhos refletiram um raio certeiro vindo em sua direção, que atravessou-lhe o corpo, queimando-o. Assustadas, as pessoas começaram a correr, enquanto o fogo alastrava-se pela vila, queimando as casas uma a uma. Crianças tentavam correr para longe do fogo, mas logo tudo desmoronou com a força das chamas. 
         
            Quanto a Madeleine, permanecia encolhida, os olhos arregalados pelo medo, indiferente ao tempo, até que os últimos raios caíram. A moça por fim levantou-se e caminhou em direção ao velho padre, largado no chão esfumaçado, um sopro de vida ainda restava, e os poucos que ainda estavam por ali aproximaram-se, mantendo uma distância segura. A jovem levantou a cabeça branca, apoiando-a nas pernas dobradas, e a voz de padre Bernardo se fez ouvir, entrecortada pela dor. 
         
            — Minha filha, Deus esteve contigo hoje, pois Ele não pune aos inocentes, a prova do fogo revelou que a maldade está no coração dessa gente Madeleine, e por isso sua vida foi poupada. Seu coração é puro, assim como os seus atos...— O padre estremeceu no esforço de falar, mas Madeleine tocou-lhe os lábios.
          
           — Eu não entendo, há muita dor Monsenhor, todos sofrem, eu posso sentir, as crianças padre, eu... — As lágrimas abriam caminho no rosto marcado —  não,  não fale mais padre, poupe seus esforços...
        
           — Minha hora chegou minha filha, mas o seu caminho apenas começa, Deus jamais te deixará, pois seu Dom é a maior prova da misericórdia divina. Você sabe o que fazer, minha filha, você...
         
           Madeleine assentiu... contendo as lágrimas...
         
         — Lembre-se da beleza do Dom ao sol colorindo os ipês, Madeleine... — Com essas palavras murmuradas, aquele homem que viera de tão longe encontrou por fim seu destino. E a jovem ajoelhada cerrou os olhos tranqüilos do ancião. Levantou-se, e ao seu redor encontrou a visão de dois anos antes tornando-se real: o fogo consumindo o que restava da plantação, as casas desmoronando, muitos feridos pelo chão. E as pessoas apavoradas, fitando-a com misto de medo e vergonha. Sem coragem para se aproximar. Sim, Madeleine sabia o que deveria fazer.
         
            Naquela manhã, a vila acordara com os gritos de Madeleine, mas agora que a dor consumia as mães e os pais, os clamores eram baixos. A Última, como às vezes chamavam Madeleine, de maneira silenciosa e triste, tratou dos doentes, ajudou a enterrar os mortos, cuidou os feridos, mesmo dos que lhe atiraram pedras e lama, e na velha igreja, improvisou uma pequena enfermaria. A noite toda velou pelos moribundos, preparou ungüentos e poções. No dia seguinte, a despeito dos pedidos de perdão, seguiu pela estrada, saía enfim da vila para onde viera ainda menina, acompanhada pela mãe, a procura da avó que ali nascera. O Dom seguiria com ela, para o destino que lhe estivesse reservado. 
         
              Do outro lado da vila, um vulto afastava-se lentamente em direção a floresta, os olhos azuis envoltos em sombras, os lábios cerrados, nas costas das mãos, a marca de uma queimadura formava o desenho de uma cruz. Voltou-se ainda uma vez em direção a vila. O povoado jazia abandonado, punidos pela ira divina, punidos pela fraqueza, punidos pela maldade e pela vingança dos corações endurecidos pela tentação, convencidos por suas palavras. Sim, tivera êxito, mas seu êxito fora menor, quase deixara que a paixão o envolvesse, e mais uma vez, o Dom permaneceria, a vila renasceria apesar do sofrimento, e para as poucas crianças que restavam, a Última seria sempre lembrada como um anjo salvador.  Com um movimento, já dentro da floresta antiga, livrou-se das roupas queimadas e da aparência que usara, mas percebeu, com um gesto de raiva, que a marca na mão permanecia, assim como os olhos azuis. As árvores estremeceram quando ele gritou, até o silêncio pesar nas folhas, na densidade do nada. Seguindo o caminho oposto, Raul sabia que o destino de Madeleine ainda cruzar-se-ia com o dele, e desta vez, não poderia falhar.

Um conto de Tânia Souza
 

Dezembro 13 © Copyright 2010

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