A Vingança do Ghoul

quarta-feira, março 21



Escrito por Ramon Bacelar



   “A cesta de papéis é a melhor amiga do escritor.”- Isaac Bashevis Singer

...e deferido o último golpe, a besta pálida estrebuchou e caiu. Estava morta.

                                         FI


Com mãos trêmulas de satisfação, Lovepoe Whitewood pressionou a tecla M da antiga Remington 12 e sorriu de felicidade. Não podia segurar seu contentamento, A Vingança do Ghoul estava finalizado: fi-na-li-za-do. Pronto, Prontinho da Silva!! Pronto... para mofar em uma gaveta fedorenta a naftalina e cocô de barata.

Apoiou-se no queixo num gesto pensativo e mais uma vez afogou-se em sua realidade tediosa. Não era um bom escritor: não tinha o vocabulário do Lovecraft e a verve poético-melancólica de um Poe; muito menos a economia de efeito do M.R. James. O sense of place do Algernon Blackwood lhe zombava das selvas canadenses, enquanto que a sutileza e finura psicológica do Robert Aickman e Walter de La Mare davam-lhe língua de um ciclópico abismo instransponível. Não tinha grana para ir ao País de Outubro do Bradbury, nem conhecia o caminho. Jamais resvalava em excessos pós-modernos porque sua escrita era tão magra quanto sua geladeira e conta bancária. Suspirou pesarosamente e a realidade de sua condição acenou-lhe do abismo do Kafka (iuhúúú, misery loves company!): Não passava de um sub-Stephen King em crise de abstinência porcamente traduzido (comenta-se que se o comparassem com a Stephanie Meyer cairia num vazio depressivo). Mas nada disso importava; levantou os braços e gritou: The Vengeance of the Ghoul is mine e ninguém tasca!!!

Num misto de decepção e felicidade apanhou o manuscrito; acariciou-o como um filhote de gambá, beijou-o como se beijasse a boca da desdentada Berenice e de sua superfície amarelada, milhares de ácaros, como em uma insana corrida de espermas, penetraram nas narinas cabeludas. Abraçado ao manuscrito repetiu: é meu e ninguém tasca... Ninguém.


As 23:59 min decidiu não deitar; queria começar a revisão, precisava de um café. Da moldura vitoriana no corredor que dava para a cozinha, o sorriso zombeteiro da Mary Shelley o atormentava num tom de chacota pela sua colcha de retalhos sem o menor senso de ritmo narrativo batizado de A Vingança do Ghoul: O verdadeiro Monstro de Frankenstein; a dois passos da cozinha o badalo da meia noite o arremessou com nova energia ao objetivo.
Na ânsia por um café, não notou a luz acesa, mas antes de alcançar o umbral deu de cara com um intruso de charuto na boca saudando-o com sua caneca do Bela Lugosi!

-Boa noite papi. Vai um cafezinho aí? Descafeinado e saudável para hipertensos como tú... acabou de sair do fogo.

Com olhos esbugalhadamente surpresos pela figura baixa, obesa e palidamente grotesca o encarando, nauseado pelo odor de bosta de gato que o charuto exalava...

— O que significa isso?! Quem é você?!! - berrou com um misto de surpresa e indignação.

— Ora, ora papi, como não sabe?!

Com um súbito clarão de reconhecimento, Lovepoe se deu conta do seu estado de fadiga mental: de tanto dialogar com sua criatura no papel...

— E aí, vai dar um grau em meu visual?- perguntou o Ghoul.

— Quê?

— Progenitor desnaturado.

-Mas...

— Medíocre!! - esbravejou numa explosão de fúria e ódio virulento - Minhas orelhas são pontudas, meu nariz e boca macilentos; criou-me como um salva-vidas de aquário, um pintor de rodapé e... já não basta... já, já...além do mais... - suava e tremia de ódio dos pés a cabeça- Minha bunda é sebosa e caída PORRAAAAA !!!!!

— Mas você é um Ghoul, filhotão!! - respondeu por puro impulso.

— Um genérico e pouco imaginativo Ghoul. Produto de uma imaginação tosca, preguiçosa e repetitiva; afogada na mesmice e mediocridade, assombrada pelos espíritos obsessores do conservadorismo estilístico e repetição temática; incapaz de nada criar além de meros adolescentezinhos Kingeanos, vampirinhos chorões Riceanos e pastiches LOVECRAFTEANOS!! Você é ruim demais!!! - esbravejou.

Das profundezas do seu ser, recolheu os farrapos de auto-estima e levantou a cabeça.

— Seu monstrinho de merda!! - berrou com ânimo renovado.

— Sou mesmo; criado a sua imagem e semelhança, merdão. – apontou o indicador - Caso contrário não estaria aqui... A culpa é sua! – continuou - Só um artista do seu nível para criar um Ghoul sem apetite. Vou virar vegetariano!!

— Assim você me ofende filhão. - mais um golpe deferido em sua já baixíssima auto-estima.

— Já não basta me confinar em uma existência tediosa; em um mundo frágil, poeirento e amarelado. – espirrou - Ácaro, poeira, tosse e asma para dar com o pau... E ainda por cima me mata no final!!

Num acesso de ódio cuspiu o charuto e arrebentou a caneca no ladrilho.

— Filhote, filhote, todos tem defeitos... apesar dos teus... Eu te amo!!

— Caralho... Meu Deus. - abaixou a cabeça - Tá pensando que é novela mexicana imbecil!! – gargalhou. – Se pelo menos fosse o Chaves...

Pegou um estilhaço de cerâmica e apontou para a garganta.

— Você...- o silêncio preencheu os espaços vazios – Vo-cê...

— Sim! Faço sim!!- gotas de suor brotaram como medos úmidos. - Vou revisar agora mesmo!

-Revisar?? – pressionou o pescoço - Ou você o reescreve i-ma-gi-na-ti-va-men-te; liberte-me deste maldito status de um insignificante e humilhante borrão de tinta, cure minha asma e me dê uma existência digna de um comedor de detritos humanos...

Sentiu uma gota de sangue quente desbravar seu peito esquelético.


                                                                               ***


Dedos famintos, ansiedade borbulhante, medo avassalador, Lovepoe noite após noite encarava as teclas barulhentas e escrevia, escrevia, escrevia...

Sua criação não mais iria lhe atormentar, não só o ressuscitou como decidiu colocá-lo como protagonista de uma série cujo esboço, A Vingança do Ghoul II: A Missão, já lhe acenava das profundezas de sua renovada criatividade. Visualizou-o escalando a lista de best sellers ao lado do Paulo Coelho e Augusto Cury; se viu fechando contrato para a coleção de bancas de jornal, do ladinho de Como Ser Feliz Fazendo Sexo 24 Por Dia Sem Tirar e As Melhores Receitas da Ofélia. Curvaria às pressões editoriais para uma décima primeira parte. Reescreveria parágrafos e amenizaria o tom para torná-lo mais palatável aos paladares menos sofisticados; cederia à tentação de colocar na capa um mago encapuzado ou um adolescente míope, mesmo que estes nada tenham a ver com o enredo, ou então modificaria a trama para combinar com a ideia da luxuosa sobrecapa laminada em altíssimo relevo; esvaziaria os bolsos de colecionadores abonados, nerds tapados e estetas iletrados com inúteis edições limitadas em capas de couro e verbosidade redundante; massagearia o ego mensalmente fazendo charminho, negando autógrafos e entrevistas; arrotaria Cheval Blanc e Heidsiek safra 1907 em encontros e convenções; encheria a bola dos fãs com blogs estilosos e frases de efeito. Optaria até mesmo por um ghost-writer em dias de ociosidade criativa e pura preguiça: Dinheiro demais né ??

Levantou-se e foi ao banheiro tirar a água do joelho (aquela aliviante mijadinha); em meio ao borbulho do cano de descarga fedorento, outro som, não menos incômodo e ainda mais nauseabundo incomodou-o, mas não identificou; provavelmente um inquilino meditando no vaso sanitário ou filosofando com a cerâmica carcomida.


Sentou-se e novamente ouviu o rugido; desta vez teve certeza que sua fonte não tinha origem no universo fecal. Era um grito de tormento misturado a ansiedade; chutou a lixeira e estraçalhou a gaveta enquanto esmurrava a cabeça repetidamente; queria ir contra a parede, sangrá-la, sabia que estava preso à mente e sua infinita capacidade de criar ilusões. Sabia que não passava de um mero mecanismo gerador de alucinações, para protegê-lo de uma realidade mesquinha e burocrática ou arremessá-lo numa existência ainda mais caótica e tormentosa; suspirou profundamente, mas antes que um grito de desespero o impulsionasse a esmagá-la em mil pedaços, o mesmo mecanismo ilusório enviou-lhe outro impulso sensorial: sentiu um toque frio na nuca e do limite da visão vislumbrou uma unha suja explorando sua gengiva.

— Papi?

A respiração saiu irregular, sentiu a energia vital se esvair e emudeceu.

— Que pena papi.

— Está pronto! Prontinho!! Mais uma revisão... Umazinha! Vou transformá-lo em celebridade imortal, ao gosto do freguês hehehe... - olhou-o com ternura - Fará parte de uma série com contrato atrelado a Hollywood e o escambau; já tenho a segunda parte esboçada filhote!

— Tssss, tsss, que pena... – espirrou - ...na vida as coisas quase nunca saem como planejado. Admiro seu esforço e dedicação... - escarrou -...dois meses a fio escrevendo e revisando-o para agradar o filhão complexado... Mas ainda estou asmático e resfriado, minha bunda continua sebosa e caída, e ainda por cima... papi, estou com gases!

Sentiu uma pressão na garganta; a unha penetrando seu pomo de adão, suas órbitas como dois sapos saltitantes: o grito estrangulado retornou num eco de socorro e...

E eu, Ramon Bacelar, escritor medíocre de escrita magra, vocabulário limitado e imaginação opaca, afogado em minha realidade tediosa... Sinto um toque frio na nuca, olho para o lado... dedos,  unha... turvo... n-não!...nã ..n. ... ... ... ... ... ... ...

Comentários 2 Comentários:

Anônimo disse...

Seu Grande Filho da Mãe! Você reuniu os tormentos, as angústias e as fúrias do Caminho do Escritor. É agonizante se confrontar com as limitações e as imposições da Jornada.
E você nos apresentou a esse longo sofrimento diário. Num texto que quem lê, ri!
Ou seja, agora vão rir do nosso tormento!
Ghoul, volte aqui e enfie esse dedo sujo no nariz dele!

E a bundinha do Ghoul é pra ser sebosa e caída, mesmo. É o charme dele, ué.
Nunca te preocupe com as críticas. Abração.

Déia Tuam

21 de agosto de 2013 07:57
Anônimo disse...

"levantou os braços e gritou: The Vengeance of the Ghoul is mine e ninguém tasca!!!"

Adorei. Todo o sufoco do autor em parir uma obra.

21 de agosto de 2013 08:00

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