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O Beijo (Conto Delírico)




Para Roger e Henry.





           Quando finalmente me aproximei de Camilla – oh! como hei de me esquecer? – algo de invisível sustinha as nuvens adensadas, pesadas e sinistras. Havia uma dança macabra num céu de chumbo. Uma massa de vapores escuros contorcia o firmamento, onde a lua adernava na correnteza atroz dos cúmulos e nimbos convulsos. Num último espasmo, algo rompeu a tênue película que separava o tumultuo do céu da tranqüilidade da terra. E uma torrente fria, caudalosa como um rio que se precipita em cascatas, desabou violentamente sobre nós.





          Olhei para Camilla, admirada. A água, que penetrava em seus cabelos como agulhas regeladas, escorria por sua face em múltiplos e estreitos córregos, e velozmente diluía o halo sombrio que embaçava o seu lindo semblante. O que se revelava era algo que transcendia à beleza. Algo mágico e violento, que fez o meu coração cintilar, pôs minha voz a estremecer; e que induziu as minhas mãos a expulsarem gestos involuntários.





         Eu não percebia que a tocava. Mas sentia os seus dedos molhados afundarem em meus cabelos delicadamente. Nossas faces estavam juntas, encharcadas de água e de delírio.





          Nossos lábios se tocaram. Ela sussurrou o meu nome





         (Carolline...)



 e eu o dela





 (Camilla...).





 Seu espírito penetrou em minha boca e eu me vi dentro de sua alma.





 Era o beijo.





            Era o precipício.





            Era a delícia.





 Era o horror.





             Mergulhei na alma de Camilla. Percorri o antro adensado de sombras e de miasmas. Vaguei pela delícia dos vales lodosos e pela volúpia de pântanos desolados. Muito de minha essência dissolvia-se naquele labirinto tenebroso e deixava-se capturar pelas viscosidades dos caminhos tortuosos. E nos confins de sua alma eu experimentei  a aspereza doce dumas asas negras, que alçavam vôos nas profundezas e se recolhiam sobre mim  num abraço fatal.





              Meu corpo tremeu. Algo de muito precioso me fora furtado naquele beijo!





               Aos poucos, minha alma voltava ao corpo com uma súbita sensação de estranheza. Aquele não mais era o mesmo corpo que servira de morada à minha alma... E nem era aquela a alma que dantes animava o meu corpo. Porque a minha alma, contaminada pelos vales lodosos e pântanos desolados, mergulhara num corpo lacerado pela decrepitude.





               O abraço de Camilla afrouxou. Minhas mãos, arruinadas, tombaram inertes. E o que veio foi a queda, o desprezo e a desolação.





               Vi, da profundidade de meus olhos opacos, que Camilla se afastava de mim. E que se ia mais bela do que antes! E que levara de mim a minha juventude e a minha formosura, que avidamente acrescentara à sua beleza deslumbrante, alongando os seus anos na proporção da minha idade perdida!





               Ó, belo demônio! Súcubo encantador, que nos rouba o encanto da face e nos impõe o semblante de um demônio! Por que não acreditei em tua existência?





               Pois já não era sobre a maciez da pele que a torrente despejava-me toda a fúria. Ela percorria velozmente a miríade de rugas crespas, agora irremediavelmente escavadas na face. A água fria enchia e transbordava as órbitas duns olhos fundos, fluindo e rastejando como víboras para o poço fundo em que se transformara a minha boca.





                Camilla se foi.





               Agora serão outras as belas jovens que sentirão o estigma de um beijo doce e traiçoeiro, e provarão a delícia do furto imediato das próprias beldades. 





  E, em meio ao horror que era a visão de minhas  mãos e braços enrugados, eu alongava os olhos cavernosos, procurando capturar-lhe pela última vez a bela imagem, até escravizá-la no fundo das retinas.  Porque, se pudesse ter de volta a beleza e a juventude tão de súbito arrebatadas, eu as daria novamente por outro beijo de Camilla.


Um Conto de Paulo Soriano
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O Elixir da Juventude



Dedico este conto ao brilhante  Valetim Fagim, preclaro amigo d’além-mar,
de quem roubei, qual Robin Hood,   o ilustre nome
 para entregá-lo a uma  pobre  personagem...


Algo de terrível se abateu sobre Dom. Joan  Fagim,  alcaide-mor de Ourense, naquele ano do Senhor de 1635.

A sua jovem e bela mulher, Dona  Enelle,  perdera, aos poucos, a pujança.  O rubor de sua face se dissipara,    cedendo lugar,   em seu  rastro fugidio, a  uma  mórbida lividez. Sim! Onde havia o carmim de suas salientes maçãs,  agora se propagava a palidez de morte, que grassava o corpo inteiro, como o assalto de uma  infecção lenta e  progressiva. Depois, veio aquela aura nuviosa,  asfixiante, que  esfumava  o seu lindo semblante provençal. Assomou  um halo  embaçado, da textura de treva indevassável,  a cingir-lhe o corpo inteiro e a usurpar todos os seus encantos. Chegou  a sombra   violácea que atirava cada vez  mais fundo os olhos lânguidos e febris. Veio, enfim, um abatimento de corpo e de espírito, uma prostração tão inesperada e impetuosa, que Dom Joan, aturdido em seu amor violento, apelou aos médicos da Corte, que nada puderam fazer, porque desconheciam a origem dessa estranha  e enigmática enfermidade.

Oh, Dom Joan! Não será o castigo? Não haverá aí o dedo da justiça de Deus? Porque Dom Joan, caído de um amor insano  pela jovem francesa, mandara a própria mulher ao cadafalso, coberta de injúrias e de opróbrio. E, mal se casara com Dona Enelle,   mal  aquecera  Dom Joan o seu leito de viúvo, e a jovem esposa  se pôs   a definhar.   Mas o amor de Dom  Joan era cego e arrebatado. Daria a própria vida pela  higidez de Dona Enelle. Custasse o que custasse, ele a arrancaria das garras de Tanatos.  Nem que, num gesto extremo,  abjurando ao Padre Eterno,  tivesse de recorrer a Le Flam, o mago abjeto,  de quem ouviu, secretamente, a  própria  sentença de  morte. Sim!  Somente cedendo  sua energia vital à Dona Enelle,  poderia o alcaide enlouquecido perseverar em um futuro para a jovem consorte, antes tão bela, mas agora irremediavelmente moribunda. Diz-se que  Dona  Enelle,  em seu leito de morte, ao saber dos intentos do marido,  tentou, em vão, dissuadi-lo de tão desairosa  loucura. Mas a recusa da esposa, de faces encovadas e cabelos enrediços,  ainda mais fomentava as  lúgubres intenções do velho alcaide, mais ainda tornava delirante o seu amor, aquela paixão que nem os céus poderiam aplacar.

Então, invocando os espíritos ancestrais, Le Flam, sacerdote de Yog-Sothoth, preparou D. Joan para a imolação. Com as mãos atadas nas costas,  e firmemente amarrado pelos pés, o alcaide foi içado por uma vigorosa  corda a uma trave do teto  para ser sacrificado. Haveria de  ser assim. A eficácia do que seria feito subordinava-se à disposição voluntária do  imolado.   O cordeiro teria de oferecer-se espontaneamente  em sacrifício, pelo amor de Dona Ennele, enquanto o plenilúnio ampliava enormemente  o poder dos Antigos.

- Yog-Sothoth!  Gy-Yagin! Alyah, alyah! – exclamava o sacerdote das sombras ancestrais.  –Yog-Sothoth!

O sacerdote impôs a mão na fronte de Dom Joan. Ao  mínimo contato com os dedos nodosos do  sacerdote,  o alcaide pôs-se a se debater e a espumar  como um cão epiléptico.  A mulher,  de olhos fechados, não viu a corrente etérea, azulada, que escorria da fronte do marido para a mão do bruxo ancião,  que avidamente  absorvia os feixes de pequenos raios cintilantes.  Em pouco tempo,  o homem pênsil  entrou em um processo de definhamento acelerado.  As carnes murcharam e a pele  colou-se aos ossos angulosos e  pontudos. As faces secaram. Os olhos  escorregaram de vez para  o fundo das   órbitas.  E as bordas dos lábios,  reviradas para dentro,  como se produto de  uma invaginação  grotesca,   escondiam  um sorriso sinistro e atroz.

Ora, enquanto Dom Joan Fagim  definhava, o sacerdote adquiria um vigor extraordinário. A energia que recebia restabelecia-lhe  os músculos fatigados,  inundava-o de carnes torneadas,  purificava-lhe as veias e as artérias enrijecidas.

O sacerdote arrebatou o punhal que trazia pendente das vestes cerimoniais. Com um talho preciso e fundo, colheu, em um pequeníssimo cálix de marfim,  o sangue que restara no corpo de Dom  Joan. O sacerdote de  Yog-Sothoth bebeu do sangue inocente,  selando assim o antiqüíssimo  ritual.

Revigorado, correu para a mulher, que se  voltava para ele de braços abertos, e, tomando-a pelas  mãos sudorosas, beijou  os lábios voluptuosos que lhe eram sofregamente oferecidos. Exclamou, então, o mago,  despindo-se dos paramentos sacerdotais:

- Eis-me, Pernelle! Eis aqui Nicholas Flamel,  teu marido secular, novamente jovem!

N. do A. – Diz-se que Flamel, alquimista francês atuante no  Séc. XIV (nas. c. 1330), descobriu o elixir da juventude, compartilhando-o com Pernelle, sua esposa. Conta-se que foi visto, pela última vez,  em 1761, em um espetáculo da Ópera de Paris.


Um conto de Paulo Soriano
 

Dezembro 13 © Copyright 2010

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