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Amor Incondicional


  
Desespero. Eu estava desesperado!
Minha esposa, apesar do que os outros diziam em contrário, amava-me. Tenho a mais absoluta certeza disso. Amava-me, sim, lá do seu jeito meio turrão de ser porque, a bem da verdade, ela não era muito dada a expressar os próprios sentimentos. Há pessoas assim em qualquer família normal que se preze. Há quem deteste discursos de aniversário, confraternizações de fim de ano, declarações de amor a qualquer hora e toda sorte de acontecimentos sociais. Elisa era assim, também. Nunca tive a oportunidade de ouvir dela o que ela sentia por mim, mas isso pouco me importava. O que se sente pelo outro, às vezes, não precisa ser traduzido em palavras, não é mesmo? Pode-se, muito bem, “sentir-se” na pele, no olhar, no abraço, no gestual de carinhos.

Elisa, minha adorada esposa, encontrava-se jogada no canto do quarto de dormir, o cômodo mais protegido de nossa casa. Queriam matá-la. A turba de desocupados, violentos, ensandecidos, insensíveis, havia tomado à frente do pequeno sobrado onde morávamos. Clamavam por vingança. A cidade achava-se em polvorosa no mais completo caos. Mas não fora só a nossa cidade que perdera-se na barbárie; a tragédia se propagara pelo país inteiro. O massacre da população que se devorava não tinha precedentes históricos conhecidos: “Zumbis”, “mortos-vivos”, “infectados”, ou sabia-se lá que nomes se atribuíam aquelas “coisas” destituídas de humanidade, vagavam sem rumo, matando e multiplicando a doença.

As pancadas na porta da frente, no intento de arrombá-la, ocorriam cadenciadas. As criaturas nojentas tinham tido a idéia de usar algum objeto pesado como aríete. Os móveis empilhados na entrada, a única entrada desimpedida por grades de ferro, cediam terreno a cada estocada. A invasão iminente me levava ao desespero, pois a preocupação não se dava por mim, mas se dava por ela: Elisa, minha adorada esposa. Não, eu não queria perdê-la. Prometera ao padre que a amaria e a respeitaria na alegria e na adversidade, conquanto tal compromisso, naquelas circunstâncias, pudesse me causar a morte. Quem ama sabe o quanto é doloroso não poder proteger a pessoa amada.

Quando os boatos chegaram a meu conhecimento de que a população, movida pelo instinto de autopreservação, estava conseguindo deter os mortos-vivos, aniquilando-os por meios que, naquele momento, pouco me interessavam, a nossa situação familiar se havia ruído irreversivelmente: Elisa fora atacada e infectada! E naquele momento terrível, digo-vos sinceramente, senhores, dilacerava-me o coração ver a pobre coitada lutando incansavelmente contra as correntes que a prendiam aos pés da pesada cama de estilo colonial, de que tanto gostava. Ela já não era a mesma pessoa. O corpo, mal coberto pelos trapos, carregado de enormes feridas abertas, o rosto esverdeado e indiferente, onde se projetavam os olhos esbranquiçados pela doença, afligiam violentamente os meus sentidos. Eu não sabia fazer outra coisa senão chorar e ficar sentado na frente dela implorando o seu retorno.

Minha Elisa, às vezes, aparecia angustiada naquele rosto transfigurado, como alguém que, se afogando num rio caudaloso, procurasse num impulso desesperado romper à superfície na busca da última golfada de ar. Estes breves momentos, não raros, levavam-me a um sentimento de aflição e impotência ainda maiores. Os olhos de minha amada surgiam nos globos esbranquiçados e conectavam-se com os meus, passando-me uma mensagem desesperadora: “me ajude, por favor.” E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa inteligível, minha esposa se afundava naquela criatura abjeta; o horror voltava-me em ondas sucessivas a cada tentativa que ela fazia para comunicar-se comigo.

O hall de entrada, após os sucessivos golpes da turba, cedera causando o enfraquecimento da improvisada barricada de móveis. Eu não tinha muito tempo! Fui até o corredor do segundo andar e olhei para baixo. No vão da porta entreaberta, algumas cabeças nervosas, com braços invasores, tentavam empurrar o amontoado de sofás, mesas, armários e cadeiras. Uma daquelas cabeças, das que forçavam à entrada, me percebeu no alto da escada.

— Parem. – Gritou Victor, meu melhor amigo. Ele fora testemunha de minha união matrimonial com Elisa e sabia o quanto ela me era preciosa.

Todos pararam.

— Amigo, meu irmão. – Disse ele, em voz alta e emocionada, dando início ao trabalho de me convencer o que todos na cidade consideravam como o melhor para mim. - Não adianta protegê-la. Não faça isso. Elisa já morreu há muito. Esta coisa que você diz ser a sua mulher, me perdoe o áspero das palavras, não passa de um animal doente infectado e contagioso. Ela precisa ser sacrificada! Não há cura, não há salvação, não há solução na terra que a traga de volta!

Olhei-os com nojo.

— Não! Nenhum de vocês há de encostar um dedo em minha esposa enquanto eu estiver vivo.

Minha decisão irrevogável, como sabia, provocou o ódio do grupo empedernido em dar cabo da única coisa de valor para mim no plano terreno. Eles voltaram-se a arremeter esforços no sentido de forçar a entrada e já não precisavam de muito para invadir a minha casa.
Voltei para Elisa, decidido, já sabendo o que iria fazer. Não me dei o menor trabalho de refletir sobre os meus atos porque já o fizera antes, nas incontáveis horas em que estive preso aquele quarto com ela. Fui até à janela, lancei um olhar já saudoso à pequena cidade que voltava a sua normalidade, despi-me, e num movimento rápido me joguei de costas na cama.

— Venha querida. – Mal cheguei a terminar o convite e ela me atacou esfomeada.

Num único pulo, Elisa me assaltou violenta; uma das mãos me foi ao rosto forçando minha cabeça para o fundo do colchão, a outra apertou uma de minhas pernas no intento de imobilizar-me e, sem a menor indecisão, sem o menor remorso, enterrou as mandíbulas animalescas em minha barriga. Se pensam vocês, meus amigos, a quem envio este relato psicografado após minha recente morte, que me arrependi ao sentir as primeiras mordidas.  Não! A dor foi terrível, a dor foi indescritível porque não queiram sequer imaginar o que é ser devorado vivo. O sofrimento daí decorrente é algo que eu não desejaria nem para o meu pior inimigo.

Mas... no momento derradeiro, no estertor da morte, em meio àquela agonia, onde a percepção das coisas se confundem e nos enganam, pude ser agraciado na constatação de um fato que atormenta o imaginário das pessoas. Sempre me disseram que no momento final, quando o moribundo entrega-se à conformidade de seu destino, mesmo aquele que sofre a dor atroz e os delírios febris das doenças mais torturantes, um instante de lucidez lhe é dado como recompensa para despedir-se do mundo terreno. E assim o foi comigo!

Elisa devorava minhas entranhas, mastigava minha carne, quando o movimento parou de súbito! Meu corpo, torturado pela dor violenta, num repente, adormecera anestesiado e senti uma trégua no sofrimento. E a vi pela última vez. Sim, senhores, eu a vi! Ela apareceu lentamente no foco de minha visão. A fisionomia retorcida pela virulência da doença ainda lhe cobria o rosto pelo qual um dia me apaixonara. O meu sangue impregnado  nela, respingava do nariz, dos longos cabelos, da boca cheia, de onde escorria a baba do que estivesse a mastigar e no conjunto estarrecedor apresentado a mim, consegui extrair “a mensagem” do esbranquiçado medonho de seus globos oculares. Foi através deles, dos olhos, que a alma de minha adorada esposa queria dizer-me o que, apesar de eu fingir não dar importância, sempre quis ouvir: “Eu te amo”.

Aquele instante mágico, efêmero, não passou mais do que três ou quatro segundos, porque em seguida ela enterrou o rosto novamente em minhas entranhas e continuou a me devorar. No entanto, afirmo sem medo de me julgarem louco: Todo o sofrimento valeu à pena, valeu sim! Sou sabedor de que causei traumas psicológicos, noites insones e a perda da fé no divino em muitas das pessoas que invadiram nosso quarto àquela noite. Não lhes peço desculpas, de modo algum, tampouco ei de perdoá-las!

Quero que todos eles, malditos sejam, fiquem a ruminar pensamentos, a vida inteira se preciso for, para entenderem o sorriso que perpassava minha fisionomia enquanto minha adorada Elisa saciava a sua fome!


Conto De Afonso Luiz Pereira


Desespero. Eu estava desesperado!
Minha esposa, apesar do que os outros diziam em contrário, amava-me. Tenho a mais absoluta certeza disso. Amava-me, sim, lá do seu jeito meio turrão de ser porque, a bem da verdade, ela não era muito dada a expressar os próprios sentimentos. Há pessoas assim em qualquer família normal que se preze. Há quem deteste discursos de aniversário, confraternizações de fim de ano, declarações de amor a qualquer hora e toda sorte de acontecimentos sociais. Elisa era assim, também. Nunca tive a oportunidade de ouvir dela o que ela sentia por mim, mas isso pouco me importava. O que se sente pelo outro, às vezes, não precisa ser traduzido em palavras, não é mesmo? Pode-se, muito bem, “sentir-se” na pele, no olhar, no abraço, no gestual de carinhos.
Elisa, minha adorada esposa, encontrava-se jogada no canto do quarto de dormir, o cômodo mais protegido de nossa casa. Queriam matá-la. A turba de desocupados, violentos, ensandecidos, insensíveis, havia tomado à frente do pequeno sobrado onde morávamos. Clamavam por vingança. A cidade achava-se em polvorosa no mais completo caos. Mas não fora só a nossa cidade que perdera-se na barbárie; a tragédia se propagara pelo país inteiro. O massacre da população que se devorava não tinha precedentes históricos conhecidos: “Zumbis”, “mortos-vivos”, “infectados”, ou sabia-se lá que nomes se atribuíam aquelas “coisas” destituídas de humanidade, vagavam sem rumo, matando e multiplicando a doença.
As pancadas na porta da frente, no intento de arrombá-la, ocorriam cadenciadas. As criaturas nojentas tinham tido a idéia de usar algum objeto pesado como aríete. Os móveis empilhados na entrada, a única entrada desimpedida por grades de ferro, cediam terreno a cada estocada. A invasão iminente me levava ao desespero, pois a preocupação não se dava por mim, mas se dava por ela: Elisa, minha adorada esposa. Não, eu não queria perdê-la. Prometera ao padre que a amaria e a respeitaria na alegria e na adversidade, conquanto tal compromisso, naquelas circunstâncias, pudesse me causar a morte. Quem ama sabe o quanto é doloroso não poder proteger a pessoa amada.
Quando os boatos chegaram a meu conhecimento de que a população, movida pelo instinto de autopreservação, estava conseguindo deter os mortos-vivos, aniquilando-os por meios que, naquele momento, pouco me interessavam, a nossa situação familiar se havia ruído irreversivelmente: Elisa fora atacada e infectada! E naquele momento terrível, digo-vos sinceramente, senhores, dilacerava-me o coração ver a pobre coitada lutando incansavelmente contra as correntes que a prendiam aos pés da pesada cama de estilo colonial, de que tanto gostava. Ela já não era a mesma pessoa. O corpo, mal coberto pelos trapos, carregado de enormes feridas abertas, o rosto esverdeado e indiferente, onde se projetavam os olhos esbranquiçados pela doença, afligiam violentamente os meus sentidos. Eu não sabia fazer outra coisa senão chorar e ficar sentado na frente dela implorando o seu retorno.
Minha Elisa, às vezes, aparecia angustiada naquele rosto transfigurado, como alguém que, se afogando num rio caudaloso, procurasse num impulso desesperado romper à superfície na busca da última golfada de ar. Estes breves momentos, não raros, levavam-me a um sentimento de aflição e impotência ainda maiores. Os olhos de minha amada surgiam nos globos esbranquiçados e conectavam-se com os meus, passando-me uma mensagem desesperadora: “me ajude, por favor.” E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa inteligível, minha esposa se afundava naquela criatura abjeta; o horror voltava-me em ondas sucessivas a cada tentativa que ela fazia para comunicar-se comigo.
O hall de entrada, após os sucessivos golpes da turba, cedera causando o enfraquecimento da improvisada barricada de móveis. Eu não tinha muito tempo! Fui até o corredor do segundo andar e olhei para baixo. No vão da porta entreaberta, algumas cabeças nervosas, com braços invasores, tentavam empurrar o amontoado de sofás, mesas, armários e cadeiras. Uma daquelas cabeças, das que forçavam à entrada, me percebeu no alto da escada.
— Parem. – Gritou Victor, meu melhor amigo. Ele fora testemunha de minha união matrimonial com Elisa e sabia o quanto ela me era preciosa.
Todos pararam.
— Amigo, meu irmão. – Disse ele, em voz alta e emocionada, dando início ao trabalho de me convencer o que todos na cidade consideravam como o melhor para mim. - Não adianta protegê-la. Não faça isso. Elisa já morreu há muito. Esta coisa que você diz ser a sua mulher, me perdoe o áspero das palavras, não passa de um animal doente infectado e contagioso. Ela precisa ser sacrificada! Não há cura, não há salvação, não há solução na terra que a traga de volta!
Olhei-os com nojo.
— Não! Nenhum de vocês há de encostar um dedo em minha esposa enquanto eu estiver vivo.
Minha decisão irrevogável, como sabia, provocou o ódio do grupo empedernido em dar cabo da única coisa de valor para mim no plano terreno. Eles voltaram-se a arremeter esforços no sentido de forçar a entrada e já não precisavam de muito para invadir a minha casa.
Voltei para Elisa, decidido, já sabendo o que iria fazer. Não me dei o menor trabalho de refletir sobre os meus atos porque já o fizera antes, nas incontáveis horas em que estive preso aquele quarto com ela. Fui até à janela, lancei um olhar já saudoso à pequena cidade que voltava a sua normalidade, despi-me, e num movimento rápido me joguei de costas na cama.
— Venha querida. – Mal cheguei a terminar o convite e ela me atacou esfomeada.
Num único pulo, Elisa me assaltou violenta; uma das mãos me foi ao rosto forçando minha cabeça para o fundo do colchão, a outra apertou uma de minhas pernas no intento de imobilizar-me e, sem a menor indecisão, sem o menor remorso, enterrou as mandíbulas animalescas em minha barriga. Se pensam vocês, meus amigos, a quem envio este relato psicografado após minha recente morte, que me arrependi ao sentir as primeiras mordidas. Não! A dor foi terrível, a dor foi indescritível porque não queiram sequer imaginar o que é ser devorado vivo. O sofrimento daí decorrente é algo que eu não desejaria nem para o meu pior inimigo.
Mas... no momento derradeiro, no estertor da morte, em meio àquela agonia, onde a percepção das coisas se confundem e nos enganam, pude ser agraciado na constatação de um fato que atormenta o imaginário das pessoas. Sempre me disseram que no momento final, quando o moribundo entrega-se à conformidade de seu destino, mesmo aquele que sofre a dor atroz e os delírios febris das doenças mais torturantes, um instante de lucidez lhe é dado como recompensa para despedir-se do mundo terreno. E assim o foi comigo!
Elisa devorava minhas entranhas, mastigava minha carne, quando o movimento parou de súbito! Meu corpo, torturado pela dor violenta, num repente, adormecera anestesiado e senti uma trégua no sofrimento. E a vi pela última vez. Sim, senhores, eu a vi! Ela apareceu lentamente no foco de minha visão. A fisionomia retorcida pela virulência da doença ainda lhe cobria o rosto pelo qual um dia me apaixonara. O meu sangue impregnado nela, respingava do nariz, dos longos cabelos, da boca cheia, de onde escorria a baba do que estivesse a mastigar e no conjunto estarrecedor apresentado a mim, consegui extrair “a mensagem” do esbranquiçado medonho de seus globos oculares. Foi através deles, dos olhos, que a alma de minha adorada esposa queria dizer-me o que, apesar de eu fingir não dar importância, sempre quis ouvir: “Eu te amo”.
Aquele instante mágico, efêmero, não passou mais do que três ou quatro segundos, porque em seguida ela enterrou o rosto novamente em minhas entranhas e continuou a me devorar. No entanto, afirmo sem medo de me julgarem louco: Todo o sofrimento valeu à pena, valeu sim! Sou sabedor de que causei traumas psicológicos, noites insones e a perda da fé no divino em muitas das pessoas que invadiram nosso quarto àquela noite. Não lhes peço desculpas, de modo algum, tampouco ei de perdoá-las!
Quero que todos eles, malditos sejam, fiquem a ruminar pensamentos, a vida inteira se preciso for, para entenderem o sorriso que perpassava minha fisionomia enquanto minha adorada Elisa saciava a sua fome!

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Um Amor Imortal


 


 - Oi Baby. Cheguei!

    Ele a ouve sussurrar em seu ouvido. Sente os lábios quentes e úmidos tocarem seu rosto em um gostoso beijo de bom dia. Ainda sonolento, com os olhos cerrados, ele se vira esperando sentir o sabor daqueles lábios junto aos seus. Sente sua boca beijada pelo vento gélido adentrando ao quarto. Ele abre os olhos, está sozinho. Pela janela aberta o vento sopra ocupando todo o quarto. Ele não está totalmente só. Dividiu a cama com uma velha amiga, a quase vazia garrafa de whisky, sua amiga inseparável, companheira de todas as noites solitárias, amiga que por muitas vezes o fez esquecer que estava só.

    Ele se senta na cama, espreguiçando-se. Olha por alguns segundos em cima do criado-mudo um retrato amarelado pelo tempo. Uma bela jovem, a imagem de um anjo eternizado em papel. Dona do mais belo sorriso, um sorriso encantador que os anos não amarelou.

    Ele leva o braço em direção ao retrato e, com as pontas dos dedos acaricia o rosto intocável, de um anjo estampado em um retrato.

    - Por que eu nunca a procurei?

    Mais uma vez a pergunta ecoa em sua cabeça. A mesma pergunta que seu coração lhe repetia todas as manhas.

    - Por que eu nunca a procurei?

    E como em todas as manhas, a resposta surgia quando seus olhos passeavam pelo quarto. Espalhados pelos cantos, tantos cadernos jogados. Dentre os diplomas e troféus, tantas paginas rabiscadas, estórias apenas começadas, outras, muitas outras já consagradas, conhecidas, filmadas. Aquela garota do retrato por tantas atrizes já fora interpretada, porem nenhuma delas conseguiu transpassar em tela a beleza pura, a simplicidade, carinho e sensualidade que aquela doce figura transmitia à ele, um velho escritor.

    Aquela jovem estava em todos os seus livros, em seus contos, em seus personagens... Em seus sonhos.

    Talvez ele pudesse tê-la procurado, conhecido-a pessoalmente. Talvez todos os seus sonhos se tornassem realidade. Talvez vivessem juntos uma bela história de amor.

    Mas o que seria de seus personagens?

    O que seria da magia que os une?

    Qual a influencia que a rotina teria sobre esse amor tão belo que ambos alimentaram um pelo outro?

    Juntos com os desejos revelados, revelar-se-iam também os defeitos e, a magia talvez se extinguisse com o tempo. Sendo assim, escolheram viverem a distancia esse sentimento tão belo. Amaram-se em sonhos, em contos, em prosa, em verso...

    Muitos anos se passaram. Ambos viveram as suas vidas, envelheceram. Ele se tornou um solitário e consagrado autor da literatura fantástica. Ela, uma romancista renomada, ocupou seu lugar de honra na academia para o qual já nascera predestinada. Hoje passa os dias em sua fazenda do outro lado do país. Quando não está escrevendo, está com seus netos reunidos ao seu redor e contando uma de suas estórias de amor, todas em segredo dedicadas à ele.

    Ambos envelheceram, mas guardaram nas lembranças a imagem jovial, sonhadora e apaixonada pela vida que ambos tinham quando se conheceram. Para ele, ela continuava bela e jovem como naquele antigo retrato sobre o criado-mudo. Inspirando-o em muitas outras personagens que ainda virão, com toda sua sensualidade de mulher e sua delicadeza de menina.

    Muitos de seus amigos e admiradores já questionaram-no sobre a real existência de tão doce mulher. Sua resposta é imediata. Ela existe e sempre vai existir, eternizada em um retrato... Gravado em seu coração.

Conto de Thato Bordin

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A Sétima Pétala


  

 3h50min. Da madrugada. Erik acordou com o irritante som do telefone tocando. Assustado com a hipótese de ter acontecido algo de grave com alguém de sua família, mais do que depressa ele atende o aparelho, porém, quando coloca o fone no ouvido, não ouve absolutamente nada, seu telefone está mudo. Estava muito tarde para conferir o que tinha acontecido com sua linha, deixou para cuidar disso pela manha bem cedo e, quanto ao fato de tê-lo ouvido tocando, talvez tivesse sido apenas um sonho. Então o jovem advogado decidiu voltar a dormir, pois teria que estar no tribunal às sete da manha, mas, quando repousa sua cabeça sobre o travesseiro, é a campainha que começa a tocar.Rapidamente ele veste um roupão e desce as escadas, correndo, para atender à porta, não sem antes pegar o revolver calibre 38 na gaveta de seu criado-mudo, nunca se sabe quem pode estar do outro lado da porta a essa hora da noite. Cuidadosamente, Erik esconde a mão que segura a arma atrás da porta. Abrindo-a poucos centímetros com a mão livre, apenas uma pequena fresta, o suficiente para ter uma boa visão da frente de sua casa. Mas não viu ninguém, absolutamente ninguém. Irritadíssimo com a brincadeira de mau gosto que algum moleque lhe pregou, o rapaz abre a porta por completo e corre até a rua na esperança de conseguir ver quem foi o garoto que tocou sua campainha e fugiu. A rua também estava vazia, não avistou nenhuma alma viva até onde seus olhos alcançaram, apenas um enorme cão negro estava parado na calçada do outro lado da rua, como se silenciosamente observasse os movimentos do jovem Erik. O rapaz nem dá atenção para o animal e volta para dentro de sua casa. Ele estava irritadíssimo, mesmo assim precisava dormir. Antes de fechar a porta por definitivo, Erik dá uma última olhada na rua e, dessa vez, nem mesmo o cão está mais lá. O jovem bate a porta com força, trancando-a; quando se vira, surpreende-se com um estranho homem sentado em sua poltrona favorita, posicionada de frente para a porta. Um homem de pele muito clara, trajando terno branco e chapéu da mesma cor que lhe cobria os olhos e parte do rosto. No bolso do elegante paletó, o homem trazia uma rosa vermelha. Apavorado, Erik empunha a sua arma, apontando-a para o peito do intruso.

    - Quem é você e, como passou por mim sem que eu lhe visse?

    Nada, nenhuma resposta, o estranho permanece em total silêncio.

    - Saia de minha casa agora, se não, eu vou atirar, eu juro que atiro.

      O silêncio é quebrado pela mais horripilante gargalhada que Erik já teria ouvido, o riso ensurdecedor parecia vir de todos os cômodos da casa direto ao cérebro do jovem. Ao término da mórbida alegria, o estranho volta a ficar silente, enfiando a mão no bolso interno de seu paletó. Tal atitude deixou Erick apavorado, disparando três tiros em direção ao peito do sujeito. Mas o intruso não esboçou nenhuma reação, nem de susto, nem de medo e muito menos de dor, era como se as balas tivessem desviado de seu corpo. Como se nada tivesse acontecido, o homem tira do bolso um maço de cigarros, põe um cigarro na boca, encosta a unha comprida e pontiaguda do dedo indicador na ponta do mesmo e acende-o. Após uma longa tragada, o estranho assopra a fumaça em direção ao Erik e, em seguida, novamente sua gargalhada toma conta de todo o ambiente. Enfim, o estranho homem começa a falar.

    - Homens! Os mais estúpidos dos animais. A única criação a quem “ele” conferiu o dom do raciocínio, e toda a inteligência foi usada para a autodestruição: dos cigarros às armas, das bebidas à bomba-atômica, tudo o que vocês sabiamente conseguiram criar de algum modo os leva à morte. Tolos mortais usaram da sabedoria para se tornarem os mais estúpidos dentre os animais.

    - Quem é você? Responde, maldito - Erik pergunta aos berros, tentando controlar a tremedeira de seu braço e continuar apontando a arma para o estranho.

    - Quem sou eu - o sujeito se levanta; nesse momento Erik vê no encosto da poltrona na qual o homem estava sentado três buracos de balas. Percebendo que a arma não causaria nada no estranho invasor, o rapaz a deixa cair no chão. Então o estranho, ainda sem levantar a cabeça, continua a falar:

    - Você sabe quem eu sou! Quando você era criança, todas as noites antes de dormir você olhava em baixo da cama para ver se eu estava lá... E eu estava; você não me enxergava, mas eu estava... Vocês, pobres idiotas, me deram muitos nomes e muitas faces, uma mais horrenda que a outra, ignorando até mesmo a maldita Bíblia que diz que “ele” me criou tão belo e poderoso quanto a si mesmo... Deram-me chifres e rabo, me chamam de capeta, de diabo, de demônio, de satanás, hades, belzebu... Outrora já fui chamado de o portador da luz, meu nome é Lúcifer... A mais poderosa criação divina.
    
Nesse momento, Erik sente todo seu corpo estremecer, suas pernas já não agüentam mais o próprio peso, ele cai sentado no sofá tentando inutilmente controlar seu temor. Gaguejando, ele pergunta:

    - E, o que você quer... quer de mim?

    O nefasto homem calmamente caminha em direção a Erik, seu chapéu continua escondendo seus olhos; pausadamente, ele volta a falar:

    - A sua alma, eu quero a sua alma e, nesse momento, ela me pertence, mas para a sua sorte, eu e “ele” resolvemos lhe dar uma chance de reparar sua vida e se livrar do peso de seu pecado...

    - Pecado? Que pecado? Não tenho nenhum pecado!

    Tomado de uma fúria sem igual, Lúcifer agarra o jovem advogado pela garganta, cravando as unhas pontiagudas em seu pescoço, levantando-o do sofá com apenas uma das mãos, e finalmente mostrando seus olhos, que até então estavam escondidos sob a aba do chapéu. Lançando um olhar fixos nos olhos de Erik, um olhar todo negro, profundo, execrável, um olhar carregado de toda maldade que há no inferno, Lúcifer começa a gritar:

    - Não minta para mim, idiota. Você pode mentir para a mulher que você deixou viúva, você pode mentir para o garoto que você deixou sem pai aos seis anos de idade, você pode mentir para a polícia, você pode mentir até para você mesmo, mas você não pode mentir para mim, nunca minta para mim, eu conheço seu pecado, eu conheço os pecados de todos os homens. Eu estava lá quando você atropelou aquele infeliz e fugiu, deixando-o para morrer... Eu conheço todos os pecados... Eu estou por trás de todos eles... Eu sou o pecado.

    Lúcifer solta o pescoço de Erik, deixando-o cair novamente sentado no sofá, voltando a falar calma e pausadamente, enquanto retorna para a poltrona que estava:

    - Mas como eu já disse, hoje é seu dia de sorte. Entre milhões de prováveis candidatos, você foi escolhido e terá a chance de mostrar para “ele” que seu lugar não é no inferno.

    O sinistro sujeito coloca a mão com a palma para baixo sobre a mesa de centro localizada em sua frente e, lentamente, vai levantando a mão. Fazendo aparecer um copo cristalino sobre a palma, encosta sua unha comprida na boca desse copo, enchendo-o de água. Erick observa apavorado a cena. Lúcifer rindo da situação diz ao jovem:

    - Não se assuste com isso, sempre faço água escorrer pelos olhos das imagens que vocês chamam de santas, só para ver até onde vai a estupidez humana. Como é divertido ver todos se ajoelhando e pedindo por um milagre a um pedaço de gesso! “Ele” já me pediu varias vezes para não fazer mais isso, mas eu não resisto, eu faço e vocês choram, se ajoelham e adoram, mesmo “ele” lhes pedindo para não adorarem imagens.

    Lúcifer retira de seu bolso a bela rosa vermelha, depositando-a dentro da água.

    - Sete pétalas, é o tempo que você terá, nem mais, nem menos. Seu tempo é mínimo, mas suficiente. Espero que o aproveite. Se não conseguir, quando a sétima pétala dessa rosa cair... Eu voltarei para buscá-lo.

    Erik abaixa a cabeça, apoiando-a nas mãos, não acreditando que aquilo estava lhe acontecendo. Mais uma vez a maldita gargalhada penetra em seu cérebro, o jovem volta o olhar para o seu indesejável visitante, ele não estava mais lá, foi embora deixando apenas a rosa sobre a mesa branca. Erik volta a seu quarto, cabisbaixo, ainda assombrado com o recente acontecimento. Ele queria acordar e ver que tudo não passou de um pesadelo, mas a dor que sentia no pescoço, causada pelas unhas do intruso, era bem real. Andava de um lado a outro do quarto, lembrando-se, como se tivesse sido ontem, aquela maldita tarde em que saiu com seu carro, às pressas, para um julgamento em que ele era o advogado de defesa. Era seu primeiro caso, por isso seu nervosismo estava à flor da pele e como que por um descaso do acaso, um homem completamente bêbado entrou na frente de seu carro. Erik não teve tempo para reação, ele mal viu de onde o homem surgiu e quando se deu conta o infeliz já estava sendo atirado por cima do carro. Assustado e confuso, Erik freou de repente e pela janela do veiculo olhou para aquele corpo estendido no asfalto, o sangue formando uma imensa poça vermelha em volta da cabeça. Nem mesmo ele entendeu o porquê, mas a única coisa que lhe veio à mente naquele momento foi deixar o local. Não conseguia acreditar que tal tragédia aconteceu com ele. O envolvimento de um advogado - principalmente sendo recém-formado - em um homicídio, fosse ele culposo ou doloso, seria uma mancha difícil de apagar. Não tinha mais ninguém nas ruas, somente Erik e aquele corpo deitado no asfalto, então o rapaz acelerou o carro e se evadiu do local, sem olhar para trás, deixando apenas o corpo sem movimento mergulhado naquela poça de sangue. Erik pediu para adiar o julgamento, alegando problemas de saúde e durante o resto do dia ele permaneceu trancado em seu escritório, tentando fingir que nada aconteceu. Mas a consciência é o pior dos torturadores para os homens de bom caráter. O jovem Erik não conseguia esquecer aquela cena, aquele corpo estendido no asfalto, tentou dormir, mas aquela mancha de sangue estava em seus sonhos, estava em sua mente. Depois de uma noite mal dormida, ele decidiu tentar descobrir quem era aquele homem, procurou a polícia com a desculpa de ter lido sobre o caso no jornal e queria oferecer os seus serviços de advogado à família da vitima, em caso de moverem um processo contra o condutor do veiculo. Na delegacia, Erik descobriu que o homem se chamava Felipe Latorre, era casado e pai de um garoto de seis anos. Felipe tinha perdido o emprego na manhã do acidente, a polícia acreditava que esse tenha sido o motivo de um provável suicídio, porém ainda procuravam pelo condutor do veiculo. Suicídio ou não, o condutor se evadiu do local sem prestar socorro à vitima. O jovem advogado deixou seu cartão com o sargento que o atendeu e deixou a delegacia. Tendo em mãos o nome do homem atropelado, foi fácil para Erik descobrir o seu endereço. Acabou conhecendo a viúva, Sara Latorre, e seu filho Luan. Também se aproximou de Sara com a desculpa de querer oferecer os seus serviços. Enquanto chorava a morte do marido, a mulher lhe confidenciou que era casado com um homem doente, um viciado em jogos. Felipe estava sufocado até o pescoço em dividas e por isso estava deixando-o, não agüentava mais ver o homem que amava perder tudo que ganhava em uma mesa de pôquer. Na manha do acidente, seu marido tinha perdido o emprego, ele pegou tudo que recebera por seu tempo de serviço na firma e, na tentativa de dobrar o valor para saldar as divida, ele acabou perdendo tudo no jogo. Em desespero, ele encheu a cara de bebida, mandou uma mensagem pelo celular à sua amada esposa Sara, com poucas palavras, que diziam: “Me desculpe por não ter sido o marido de teus sonhos, diga ao Luan que o amo muito, amo muito vocês dois e sempre os amarei... Adeus”, e, em seguida pulou na frente do primeiro carro que apareceu.

    Descobrir que realmente se tratava de um suicídio aliviou o torturante sentimento de culpa do rapaz, esquecendo-se do fato que, sendo suicídio ou não, ele deveria ter tentado salvar a vida do desiludido homem de todas as formas, mas não o fez. Erik decidiu seguir sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido... Até hoje, porém ele não esperava que o passado voltasse para lhe cobrar essa divida. Erik abre a gaveta do criado-mudo ao lado de sua cama. Após vasculhar a papelada lá esquecida, ele encontra uma agenda antiga; folheando-a rapidamente, ele pára letra “S”, e localiza um nome: Sara. Pega o telefone, mas ao colocá-lo no ouvido percebe que o mesmo ainda está mudo, então ele pega o celular, mas antes de ligar Erik olha as horas marcadas no visor do aparelho, são 4h20min. Da madrugada, ele resolve esperar que o dia amanheça, desce as escadas correndo, a fim de conferir como estava a maldita rosa. Sente um alivio ao vê-la ainda intacta, coloca o celular na mesma mesa em que se encontra a rosa e se senta na poltrona, apoiando a cabeça sobre as mãos, observando a singela e odiada flor. Inquieto, Erik se levanta e dá varias voltas ao redor da mesa, indo e vindo, sentando novamente e levantando, iniciando novas voltas, não tirando nem por um segundo o olho da rosa. Seus nervos estavam completamente fora de controle. Volta a conferir as horas, são 4h50min. Ainda é cedo, mas ele não consegue mais esperar, ele sabe que logo a primeira pétala cairia, pega a agenda do bolso e liga para o numero ao lado do nome de Sara. Um frio lhe percorre a espinha ao ouvir a voz sonolenta de uma mulher do outro lado da linha, ao mesmo tempo em que seus olhos vêem a primeira pétala da rosa delicadamente se desprender da bela flor e repousar sobre a mesa de mogno branco.

    - Alo! - Responde a voz feminina

    - Alo, Sara?

    - Sim!

    - Sara, sou eu... Erik... Lembra-se de mim?

    - Erik?!? Eu me lembro. O advogado que me procurou quando meu marido... Bem; eu me lembro de você sim.

    - Desculpe-me por ligar a essa hora, mas eu preciso falar com você.

    - Aconteceu alguma coisa? Você parece nervoso. - Pergunta Sara ao notar um tom de aflito na voz de Erik.

    - Sim, aconteceu, mas, se eu lhe contasse, com certeza você não acreditaria em mim, então não vou me arriscar a ser ridicularizado por você.

    - Pela hora que você me ligou, só pode ser algo de muita urgência, então fale.

    - Deixa-me ir direto ao assunto... Lembra-se do acidente de seu marido?... É claro que se lembra, mais que pergunta idiota a minha... Bem; eu não fui sincero com você quando lhe procurei.

    - Como assim?

    - Era eu que... Fui eu que atropelei... O seu marido.

    - Erik... Eu sei... Eu sempre soube.

    Erik se surpreende com a resposta da jovem viúva.

    - Você sempre soube? Como assim?

    - Toda vez que você olhava para mim ou para meu filho eu enxergava um pedido de desculpas em seus olhos, eu sentia que você estava sendo torturado pelo que tinha lhe acontecido, por isso nunca toquei no assunto, mas isso já faz um ano. Por que resolveu me dizer agora?

    - Você não acreditaria em meus motivos, só entenda que eu precisava me confessar com você.

    A segunda pétala cai sobre a mesa. Erik volta a falar com descontrole.

    - Você está precisando de dinheiro? Eu lhe ajudo, eu lhe ajudo com o que você precisar.

    - Erik, as coisas estão mesmo difíceis, mas não quero a sua ajuda. Eu sei que você não teve culpa na morte de meu marido. Se não fosse o seu carro, seria o de outra pessoa.

    O suor frio escorre sem parar na testa do rapaz, suas mãos trêmulas mal conseguem segurar o celular ao ver a terceira pétala se desprender da rosa.

    - Mas eu tenho uma dose de culpa... Eu não o ajudei... Eu não sei por que eu fiz isso, talvez tivesse ficado com medo de prejudicar a minha carreira com o envolvimento em um acidente como aquele. Eu simplesmente fugi sem nem ao menos descer do carro para ver como seu marido estava. Eu poderia talvez ter-lhe salvo a vida, ou ao menos tentado... Mas não o fiz.

    Sara fica em silêncio, Erik consegue ouvi-la chorando ao fundo do fone.

    - Sara? Sara?

    - Estou aqui! Erik, preste atenção, eu não sei o que aconteceu com você ou porque você resolveu me falar isso depois de tanto tempo, mas sei que, para julgá-lo, eu teria que estar no seu lugar e passar pelo que você passou. Não posso fazer isso e tenho certeza que você já se julgou e se sentenciou. Você é um bom homem Erik, também sei que faria tudo diferente se tivesse uma segunda chance, mas meu marido está morto e nada o trará de volta. Então, por favor, tente esquecer isso e me deixe tentar esquecer também.

    A quarta pétala cai, Erik não sabe mais o que deve fazer para salvar a alma.

    - O garoto... Luan é esse o nome dele?

    - Meu filho?!? O que tem ele?

    - Deixe-me fazer algo por ele... Deixe-me pagar os estudos dele ou algo assim.

    Sara pensa por um instante e logo responde:

    - Olhe, meu orgulho não me deixa aceitar nenhum favor seu, mesmo passando pelas dificuldades que estou passando. Mas, meu filho não deve sofrer por causa de meu orgulho. Então vou aceitar que você pague os estudos dele se assim você quiser.

    - Obrigado Sara, sei que não apagará o que aconteceu, mas...

    - Por favor, amanhã falaremos sobre isso, agora tente dormir um pouco. Tchau, Erik.

    Sara desliga o telefone. Erik fecha o celular e o recoloca sobre a mesa, olhando atentamente para a rosa. Achando que conseguiu se livrar de Lúcifer, o rapaz esboça um sorriso. Seu sorriso deixa o seu rosto ao ver a quinta pétala caindo, no mesmo instante em que o vulto de um homem de branco aparece em pé ao seu lado. O desespero de Erik retorna ao seu corpo com mais intensidade, então ele gira o rosto para fitar a pessoa em pé ao seu lado, mas não vê ninguém. O jovem, vendo que ainda não está a salvo, pega novamente o celular. Dessa vez ele digita apenas três números.

    - Departamento de polícia, boa noite.

    - Boa noite. Eu gostaria de falar com o sargento De Lucca.

    - São 5h30min. Da manha meu senhor. O sargento De Lucca só chega às 8h.

    - Tem algum outro superior de plantão?

    - Me desculpe senhor, mas estão todos em ronda. Está acontecendo alguma coisa com o senhor? Quer que eu encaminhe uma viatura até a sua casa?

    A sexta pétala também se solta. O jovem advogado sente alguém andando a sua costa, se vira assustado, novamente não tem ninguém. Todo seu corpo treme, o suor gélido escorre sem parar, Erik sente seu coração disparar desenfreada mente.

    - O senhor está bem? Que eu encaminhe uma viatura senhor?

    - Não será necessário.

    Erik desliga o celular ao ver a sétima pétala caindo enquanto ouve novamente a maldita gargalhada penetrar em sua cabeça.

    - Seu tempo acabou, meu rapaz.

    O jovem advogado se levanta lentamente da poltrona, encarando seu triste destino. Ele queria gritar, correr, se esconder, mas Erik sabe que nada disso adiantaria. Sua cabeça gira sem parar, indo e vindo, do inicio ao fim e voltando, tentando entender onde foi que errou, o que ele deixou de fazer. Seus pensamentos são interrompidos pela voz de seu carrasco invadindo sua mente.

    - Pare de se torturar meu rapaz. Você terá toda a eternidade para descobrir onde errou, isso é claro. Quando você não estiver sentindo o seu cérebro pegando fogo ou os chicotes estalando em suas costas, talvez você consiga encontrar algum tempo para pensar onde errou.

    Lúcifer pega a rosa do copo, todas as pétalas caídas retornam a seu lugar de origem, a flor está bela e formosa novamente. Erik percebe uma nuvem negra se formando ao seu redor, espectros do inferno se movendo a seus pés, envolvendo-o pouco a pouco. Ele chora, como um menino perdido; ele chora, suas pernas não agüentam o peso de seu sofrimento e se dobram, seus joelhos despencam em direção ao solo. De braços abertos, Erik joga seu corpo para trás, deitando-se sobre as pernas. Seus olhos estão fixos no teto da casa, olhando para o nada, olhando para algo que ele não conseguia enxergar, mas sabia que estava lá, observando a tudo em silêncio. Seus lábios sussurram entre as lágrimas:

    - Perdoe-me, pai... Perdoe-me!

    De repente, as nuvens negras desaparecem, o indesejável visitante dá alguns passos, parando na frente do rapaz deitado de braços abertos para o céu.

    - Conseguiu, meu rapaz. Demorou, mas você conseguiu. Você começou se confessando à viúva, depois você ofereceu ajuda em dinheiro a ela e depois ao filho dela, ligou para a polícia e, a única coisa que “ele” queria, era ouvir um pedido de perdão, um pedido vindo direto de seu coração. Demorou, mas você conseguiu. Tenho que ir agora. Minha casa vive cheia de novos visitantes, não posso ser um anfitrião ausente.

    Lúcifer, rindo do próprio comentário sarcástico, dá as costas a Erik, quando esse solta um grito:

    - Espere!

    - O que você quer? Ah, já sei...

    Novamente direcionando aqueles olhos completamente negros aos olhos do advogado, com uma voz de mil leões furiosos, o homem responde a pergunta que não queria calar na cabeça do jovem Erik:

    - Não se engane garoto. Eu não sou bom, não sou piedoso... Não sou misericordioso. Vocês malditos mortais conseguiram fazer com que “ele” perdesse a esperança em vocês a ponto de querer por um fim em toda a sua raça... Você, meu caro Erik, foi apenas o escolhido para que eu o convencesse a mudar de idéia, pelo menos por enquanto. O fim do homem sobre a terra convém muito mais a “ele” do que a mim. Sem vocês entre nós, nosso confronto direto seria inevitável e, ainda é cedo para confrontá-lo diretamente... Na hora certa, nós veremos quem é o verdadeiro rei dos reis e quanto a você... Como todo bom advogado, você vai pecar novamente e quando isso acontecer eu estarei esperando por você... Eu estarei esperando por você...
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O Sétimo


Numa noite muito quente, Ronald derretia de suor em baixo daquela túnica e do capuz. Queria levanta-lo para enxugar o rosto, mas Joana, sua esposa, o impedia segurando-o pelo braço a cada movimento involuntário de leva-lo à face.

Agora era tarde, pensaram simultaneamente, enquanto olhavam em volta, estavam reunidos em um círculo em uma clareira no meio da floresta densa, com outras cinco pessoas cada uma segurava uma vela. Formavam a união das Sombras. No centro deste círculo, uma fogueira, que iluminava mal e tornava tudo muito sinistro.

– Irmã Joana, chegou o momento, ao lado da fogueira, dois membros da seita estenderam um colchonete, para aproveitarem aquela luz.

Joana olhou para Ronald, que segurou as mãos dela, e a levou até o colchonete. Ela apertou a mão do marido, muito forte. Já não tinha mais certeza se ainda queria aquilo.

Ronald deu um beijo na testa, por sobre o capuz da esposa.

– Irmão, disse o homem que parecia ser o sacerdote da seita, agora nascerá o filho das trevas, o sétimo filho desta família, que aceitou o mais desafio de suas vidas: seguir o verdadeiro Mestre. O Mestre das Sombras!

Joana voltou a sentir fortes contrações, tão fortes quanto as que sentira à tarde, pouco antes de ligarem para o sacerdote avisando do ocorrido, confirmando a reunião para aquele local e horário.

Deitaram-na no colchonete. Ela, ainda com o capuz, chorava desesperada, de tanta dor. Doara todos os seus outros seis filhos, mas estranhamente, lá no fundo, apesar de ser muito fria de bons sentimentos, sentia amor por esta criança.

Depois de algumas horas, a criança nasceu, era um menino. E com o sangue da mãe e o fogo, fizeram o pacto das trevas.

Se algum dia os pais temeram o poder do fogo, agora era tarde, e tudo se transformara em verdade. Logo depois do batismo das trevas, a criança já sabia qual o seu destino: destruir essa bobagem do bem!

Agora o caminho deve ser seguido. Ele é o sétimo, o escolhido! E ele sente. A criança nasceu e vive. Vive para o mal. Pertence ao mal e é o mal!

Um Conto de Celly Borges
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A Dama do Rio




O casco da embarcação elevava-se no ar e caía com violência sobre as águas escuras do rio. A tempestade pegara a todos de surpresa, em apenas alguns minutos o nível das águas havia subido como há muito não era visto em toda a região. Os pescadores agarravam-se como podiam nas cordas e ganchos fincados na madeira envelhecida que revestia toda a nave. Àquela altura já suscitavam dúvidas se haveria mais água vinda do céu, correndo pelo leito, ou dentro do próprio barco. Embora não houvesse qualquer vestígio de rochas naquele percurso, um choque violento e repentino atingiu a parte inferior da embarcação despedaçando por completo toda a sua estrutura. No exato instante em que via os companheiros voando pelos ares, o comandante pôde notar um estranho brilho submerso refletido pelos lampiões que caíam na água.

Ele sentia seu corpo ser tragado pelas profundezas sem que conseguisse reagir, por mais que fizesse força. Lutava para evitar que as impiedosas águas preenchessem seus pulmões. Não conseguia enxergar quase nada, tudo estava turvo e escuro, mas ainda assim, podia jurar ter visto vários de seus amigos serem enlaçados por algo brilhante enquanto travavam uma violenta luta pela vida. O comandante buscava fazer jus à sua reputação, mas nem mesmo com um poder sobrenatural julgava ser capaz de resistir ao poder da natureza. Quase perdendo os sentidos, sentiu seu corpo ser elevado por algo que surgia das profundezas, já não sabia se aquilo tudo era realidade, ou se não passava de um delírio causado pela rigidez da situação.

O ar entrou por suas narinas de forma violenta, chegava a queimar-lhe as mucosas, o homem estava totalmente entregue, não tinha o menor domínio sobre si mesmo. Seus olhos reviravam a procura de algo que lhes confortassem, mas tudo o que viam era o seu instrumento de trabalho sendo arrastado, aos pedaços, pelos braços dominantes do rio, e as pesadas gotas que caíam do céu tomado pelas trevas. Percebia seu corpo ser levado como uma pluma sinuosa sobre o espelho d’água, não sabia como esse fato era possível, mas não insistia em tentar buscar uma explicação.

Seus músculos não tinham mais forças e sua mente logo desistiria de manter-se acesa, perder os sentidos seria questão de tempo, e assim aconteceu. Entorpecido, embarcou numa viagem escura, onde não estava no comando, não sabia onde as curvas traiçoeiras poderiam levar.

O pescador foi encontrado numa das margens na manhã seguinte. Ele estava desacordado, e assim permaneceria, em um estado profundo de letargia, fechado para a realidade, mas vivendo internamente num mundo de sonhos desconexos e sem sentido, de onde somente sua força interna poderia tirá-lo.

As águas calmas não davam sinais de serem as mesmas tomadas pela fúria incessante da noite anterior. Alguns ribeirinhos arrastavam uma rede pelo rio em busca de alimento, enquanto crianças corriam por uma das margens. Cena normal e corriqueira se não fossem os murmurinhos no vilarejo por conta do acidente fatal com o pesqueiro. Apesar do leito barrento, a farta luminosidade do dia aberto permitia uma razoável visibilidade aos homens, no entanto, naquele dia, talvez eles não desejassem enxergar tanto.

O mais franzino deles foi o que viu primeiro, um rastro sinuoso nas águas intensificado por um brilho que aumentava com o contato dos raios do sol. O reflexo feriu-lhe os olhos, fazendo com que largasse o apoio da rede e levasse as mãos ao rosto, o gesto fora acompanhado por um grito aterrador. Os demais demoraram a entender o que acontecia com o companheiro, só perceberam que havia algo errado quando o próprio erro em pessoa surgiu da parte mais funda do rio, enlaçando o corpo frágil do rapaz que gritava. A voz do pobre homem foi calada. Seu corpo desapareceu por completo do campo de visão dos amigos, em seu lugar, surgiu uma mancha escura e perturbadora.

O pânico tomou conta do resto do grupo, com saltos e de forma atabalhoada, os pescadores tentavam escapar da ameaça, mas o que se movia ali era detentor de muito mais desenvoltura, e não fora difícil para ele subjugar um a um da forma que quis. Os corpos eram arremessados pelo ar e chocavam-se violentamente contra as águas, para em seguida desaparecerem e ressurgirem em pedaços. O leito tornava-se rubro e agitado. As crianças pararam o que estavam fazendo e passaram, curiosas, a observar a estranha pescaria dos mais velhos.

Uma onda crescente em forma de delta seguia velozmente em direção a elas, a maioria correu, mas uma delas ficou. Estava praticamente hipnotizada pelo movimento incomum das águas. Os gritos e a correria dos pequenos chamaram a atenção de uma mulher que trançava palha dentro de casa. Pelo vão da janela, ela visualizou a menina parada na margem e uma seta nas águas que rumava em sua direção. Com a pressa envolvendo-lhe os pés, ela correu o máximo que pôde para alcançar a garota, não era preciso entender o que se passava para saber que aquela vida estava em risco.

A distância lhe fora favorável, um abraço urgente quebrou a hipnose da menina, mas ela ainda estava com os tornozelos no inferno e isso já seria o suficiente.

Os olhos da pequena presenciaram a cabeça de sua salvadora abandonar violentamente o corpo com uma só investida do desconhecido. Ela sabia que seria a próxima, no entanto, o ataque fatal de seu algoz fora repelido, e ela apenas acompanhou a boca escancarada da criatura desaparecendo nas águas manchadas. O corpo decapitado fora levado junto, agarrado às armas exibidas e que estavam prontas para lhe fazer mal. Suas lágrimas diluíram-se no rio, levando inocência e pureza àquele lugar maldito.

Quase no mesmo instante, no pequeno hospital da cidade, o súbito despertar do comandante do barco naufragado surpreendia o solitário médico local, o qual, prudentemente, já tratava da transferência do enfermo para as instalações da capital. No entanto, algo fazia brotar um sentimento de preocupação no peito do doutor. Embora o homem demonstrasse sinais claros de recuperação, seu olhar perturbadoramente vidrado insistia em dizer o contrário. Inutilmente, o médico tentou manter o pescador sob seus cuidados, mas a determinação do homem parecia transmutar-se em força, e, por conta disso, tentar mantê-lo internado tornou-se algo impossível. Uma vez livre, o velho comandante ganhou as ruas de barro do vilarejo.

Enquanto caminhava perdido em pensamentos, o pescador permanecia alheio à movimentação que surgia junto a margem do rio. Na verdade, lhe faltava um raciocínio coerente, parecia que sua memória recente havia sido apagada. Ainda assim, ele sabia que algo não estava certo, embora ele estivesse distante das pessoas que se aglomeravam diante das águas, ele compartilhava, mesmo que de modo inconsciente, das mesmas aflições que os atormentavam. Ele e os ribeirinhos tinham plena convicção de que algo fora da normalidade habitava aquele espaço submerso.

O povo estava horrorizado com o relato da pobre garotinha. Por obra de um verdadeiro milagre, ela conseguira ter um destino diferente de todos aqueles que haviam sido tocados pelas águas do rio naquela manhã.

De seus lábios brotavam os contornos de uma criatura inacreditável, inconcebível até mesmo para uma região tão suscetível ao extraordinário. Os líderes locais não conseguiam se conter diante da possibilidade de algo tão demoníaco macular o que lhes era sagrado, o local de onde colhiam o sustento das famílias.

Não tardou para que os barcos de diferentes tamanhos e cores ocupassem cada metro do espelho do rio. Arpões e flechas de bambu riscavam o ar e espirravam água mediante o menor movimento suspeito no leito turvo.

Eles subiram e desceram o curso d’água por várias vezes, durante todo o dia, sem que conseguissem encontrar qualquer sinal da criatura que ofendia a própria natureza simplesmente por existir. Ao cair da noite, com os barcos atracados, os homens voltavam à terra com o peso da frustração sobre os ombros.

Esperando a comitiva, no centro do vilarejo, estava a mais velha das moradoras. Ela poderia ser considerada uma local porque habitava as cercanias do pequeno povoado, embora não fixasse moradia entre os demais. Ela descendia dos índios, circulava pela mata e raramente era vista entre os habitantes, apesar de que todos tinham plena consciência a respeito da presença dos seus olhos vigilantes sobre a região. Ela impunha muito respeito, todos faziam questão de ouvir o que ela tinha a dizer, mesmo porque, dificilmente o som de sua voz se fazia ecoar...

As palavras proferidas pelo timbre rouco saíram arrastadas, soando quase como uma lamento. Elas tratavam de um espírito maligno, perverso em essência, que não se furtava em fazer valer do corpo que ostentava para disseminar o mal e causar dor, tanto física quanto emocional. A criatura se arrastava pela floresta imitando o curso dos rios, embora os antigos dissessem que eram os rios que assumiam sua forma.

Uma vez instalada numa área, o ser não descansaria até arruinar a alma de cada um dos seus habitantes, pois ele próprio não tinha sossego por odiar a própria forma e, por conta disso, invejar as linhas daqueles que desejava consumir.

Acuada, a criatura se tornava furtiva, e ostentar felicidade seria a melhor maneira de atraí-la. Assim, no alto de sua sabedoria, a velha índia ordenava que se fizesse um grande festival, uma homenagem à fartura das águas.

E assim foi feito. Todos os moradores e, até mesmo, representantes do povoado vizinho juntaram-se na margem do rio, ao redor do calor de uma grande fogueira, a lua cheia emprestava seu esplendor à comemoração. Mesmo temerosos, os ribeirinhos festejavam. Toda a angústia que lhes consumia ficava restrita ao interior de suas almas. Nem mesmo uma simples ponta de aflição poderia transparecer, caso contrário, a fera das águas não surgiria.

O velho pescador não conseguia se juntar aos demais, seu trauma parecia demasiadamente profundo para que pudesse simular alegria. Ele conseguia se lembrar de estar entre os braços da morte, do terror estampado no rosto de cada um dos seus companheiros. Porém, a lembrança da salvação era tão turva quanto as águas barrentas do rio. Ele tentava, mas só lembrava de estar flutuando antes de perder os sentidos...

Apesar da mente nublada, ele foi o primeiro a perceber as estranhas ondulações na escuridão das águas. Uma garota, não pertencente ao povoado, provavelmente, pois suas feições não foram de imediato reconhecidas pelo pescador, dançava inadvertidamente junto à margem. A jovem, que demonstrara incontido entusiasmo durante toda a noite, não fazia a menor idéia do perigo crescente às suas costas. Antevendo a situação, o homem iniciou uma desabalada carreira rumo ao terreno lodoso. Entretanto, seus movimentos foram replicados em intensidade pelos golpes das águas, os quais, de súbito tornaram-se uma imensa parede em forma de onda. A música cessou, a dança foi interrompida, a atenção de todos estava voltada para o rio, mas ninguém conseguiu se mover quando a imensa figura surgiu em meio ao turbilhão de fúria.

A criatura de escamas negras e reluzentes projetou-se com incomparável velocidade sobre a mulher, o corpo frágil foi rapidamente envolvido pelos contornos esguios da fera. O pescador, o único a esboçar um mínimo de reação diante dos fatos, tomou a espingarda de um dos estáticos moradores, chegando a derrubá-lo com o ato. O homem, decidido a por um fim na existência da besta, enlaçou com convicção o cano duplo da arma e fez mira. A boca escancarada da criatura demonstrava plena capacidade para engolir a cabeça da garota com uma só investida, e tentou, de fato, fazê-lo. Mas o chumbo rompeu o ar no instante crucial, acertando, em cheio, o vão preenchido pelos aguçados dentes.

Imediatamente, a pressão exercida pelo corpo cilíndrico foi atenuada de tal forma que a garota conseguiu escapar. Mas o demônio ainda resistia. O movimento de algumas escamas ainda era perceptível. Então, o pescador se aproximou do assassino de seus companheiros. “Na cabeça, acerte uma lâmina na cabeça!” Gritava a mulher, em evidente desespero. Atendendo aos apelos, ele desembainhou sua velha, porém afiada, faca de pesca. A cabeça da fera balançava perigosamente, embora de modo involuntário. O homem buscou a lembrança dos amigos sendo arrastados para o fundo das águas, o desejo de vingança lhe preencheu de força e determinação. Esperando o momento exato, ele golpeou com certeza de sucesso a área localizada um pouco atrás da monstruosa cabeça. De imediato a criatura tombou. Do ferimento adornado pela lâmina, um líquido espesso e negro, semelhante ao que era expelido pela boca da fera, ponto atingido pelo chumbo, começou a verter. No entanto, poucos segundos se passaram para que a tonalidade mudasse de cor. Nos dois pontos, o vermelho intenso passou a dominar. O inimigo fora finalmente vencido.

Os ribeirinhos explodiram em gritos de comemoração. A jovem parecia a mais entusiasmada, e, em aparente sinal de gratidão, tomou seu salvador em um abraço. Sem dizer uma só palavra, ela encostou seu rosto na face cansada do pescador. “Não!” Gritou a velha índia, surgindo de um ponto desconhecido. Sua voz não soava como um sussurro desta vez, pelo contrario, era firme e perfeitamente compreensível. Mas, o comandante da embarcação despedaçada não conseguiu ouvi-la. Seus olhos estavam vidrados numa imagem que o fez lembrar de tudo. Entorpecido, ele sentiu a língua bifurcada e áspera da mulher deslizando, de forma sinuosa, sobre seu rosto. Não havia mais névoa em sua mente, tudo estava claro. Fora uma gigantesca serpente negra que o livrara da morte certa no rio, uma criatura tão semelhante a que estava estirada no chão, com o sangue a esvair dos ferimentos por ele causados.

A besta assassina não era aquela. A face da morte era alva como a lua no céu, emitia um brilho prateado enquanto matava, cintilava enquanto devorava a carne humana. Ele tinha visto, jurava que tinha visto, os olhos malditos do demônio enquanto flutuava nas águas sob a proteção da criatura de negras escamas. O vazio que ele presenciou naqueles olhos estava ali, diante dele, refletido no semblante frio da mulher que o apertava cada vez mais com um abraço firme.

A índia tentava invocar sua antiga força, mas seu corpo já não respondia aos comandos com a mesma desenvoltura de outrora. A coragem dos moradores parecia diluir-se diante da incapacidade demonstrada por sua inspiradora. O prisioneiro urrava de dor. Ele sentia sua caixa torácica sendo esmagada pela força da mulher, o ar começava a lhe faltar aos pulmões. Quando achava que a morte era inevitável, ela o soltou. Mas seu horror estava apenas começando. Com incrível habilidade, a jovem se livrou das vestimentas, e com as mãos unidas junto ao esterno, começou a rasgar a própria pele. De dentro do seu corpo surgiu o revestimento pálido e reluzente de uma cobra, a qual, de maneira inexplicável, parecia crescer diante dos incrédulos moradores.

Como se refeitos de um transe, os locais partiram em direção a ela, alguns recolhiam paus e pedras como armas, outros se municiavam com rifles e facas. No entanto, já não havia tempo para retaliação, a enorme serpente branca ganhou as águas escuras com extrema perícia, mas não sem antes arrastar o corpo triturado, e pronto para ser engolido, do pobre pescador. Tiros foram disparados a esmo. As águas se tornaram indomáveis por alguns instantes, mas logo foram tocadas pela placidez usual.

Vencidos, enganados e humilhados, os ribeirinhos tentavam encontrar forças. As palavras da velha índia ecoavam com maior intensidade na cabeça de cada um deles; o demônio não descansaria enquanto não consumisse a existência de cada habitante do local por ele escolhido para viver. O que eles ainda não compreendiam, era que a criatura não agia de modo desordenado, ela não gostava de deixar um trabalho inacabado. Assim, quando jatos d’água foram lançados ao ar com violência, espalhando o pânico entre todos; um brilho metálico arrastou uma garotinha para as profundezas do rio. Desta forma, a certeza de que ninguém poderia sobreviver começou a brotar no coração daquelas pessoas.




* Texto inspirado na Lenda Cobra Norato e Maria Caninana. Conheça o Folclore Nacional, você vai se surpreender.


Um conto de Flávio de Souza
 

Dezembro 13 © Copyright 2010

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