O Riso do Pierrot

quinta-feira, março 10







Ronaldo ajustava pela milésima vez o chapéu de pirata em sua cabeça pequena; alugara uma fantasia grande demais para seu corpo franzino. George, sufocando com a fumaça do bagulho que fumava, ria de si mesmo dando nós extras para tirar a frouxidão do elástico em sua máscara de Batman. Katy, fantasiada de palhaça, tomava mais um LSD, ou, mais um doce, como eles chamavam a droga. Fábio, defronte ao espelho, dava uns últimos retoques em sua pintura de Coringa, fazendo jus à alcunha pela qual era conhecido: Joker. Enquanto Teka em seu vestido florido, chapéu e sombrinha, dançava e saltitava pela sala, no melhor estilo sinhá-moça.
Estavam todos quase prontos para o tradicional desfile da banda do veneno que há vinte cinco anos antecede o carnaval na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo.
Quando os amigos já estavam devidamente fantasiados, se serviram de mais uma rodada de vodka com energético e saíram para a rua dançando e cantando marchinhas antigas de carnaval. Entre “mamãe eu quero” e “será que ele é”, o bagulho foi queimando, ecstasy sendo tomado junto a boas doses de vodka e energético. Katy abusava do LSD e esse fato não pode deixar de ser notado por Joker, que chamou-lhe a atenção em relação ao uso excessivo da droga.
- Katy, pega leve com isso aí. A noite nem começou e você já tomou mais do que nós quatro juntos.
- Aaahhh se liga, meu! Deixa eu curtir a noite. Quero fechar meus olhos lá e viajar, imaginar que eu estou numa rave fodástica.
Joker apenas abanou a cabeça n’um gesto de reprovação.
A pequena caravana seguiu pela avenida vazia, como donos da noite, cantavam e dançavam, bebiam e se drogavam. Seguiam seu rumo com uma única preocupação, a de se divertirem até não mais agüentarem. Quando ouviram um esganiço gargalhar entrecortar a madrugada. E n’um gesto simultâneo, todos silenciaram e se voltaram, com os olhos a buscarem pela origem da inusitada gargalhada.
Viram ao longe, cortando de um lado a outro da avenida, um rapaz rindo em demasiado júbilo, fantasiado de Pierrot, seguido de perto por sua Colombina; esta não ria. Eles puderam perceber que, diferente do seu par, ela também os observava. Surgiram n’uma esquina e até desaparecerem na outra, o Pierrot gargalhava, e Colombina, apenas com um leve sorriso nos lábios, não desviara o olhar do grupo de amigos.
- Ih! Esse está mais chapado do que nós. – Disse Katy, fazendo com que todos caíssem em gargalhadas.
Se pondo novamente a cantar e dançar, o grupo prosseguiu seu caminho em direção à esquina do Veneno, bar que originou a banda e onde se inicia o desfile pré-carnaval.
Dois quarteirões de caminhada e o som de “a pipa do vovô” fora cortado pela estridência do mesmo gargalhar de alegria insana. O canto do grupo cessou abruptamente. Todos se voltaram para assistir a mesma cena melancólica. O mesmo Pierrot gargalhava sendo seguido por sua Colombina que sorrindo apenas os fitava em silêncio. Pierrot gargalhava, Colombina sorria. Ele debochava, ela instigava.
- Que louco isso! - Exclamou Joker surpreso com o Dejà vu.
- Eles estão andando em círculos? - Inquiriu Teka quase que para si mesma.
- Acho que estamos doidões e vendo coisas. É carnaval gente, tem milhares de Pierrôs e Colombinas por aí. – Disse Katy rindo sozinha, mal agüentando em cima das pernas. - Vamos andando pessoal. E George, me deixa dar uma bola nesse bagulho aí. Hoje quero ficar doidona!
- Você já está doidona. – Observou Joker – Mas deve ter razão. Está cheio de Pierrôs e Colombinas por aí essa madrugada. Não pode ser o mesmo casal.
- Mas e o riso...
- Vamos! - Teka foi interrompida pela voz autoritária de Joker - Katy tem razão, já estamos chapados. Já são 23:45 e quero estar lá antes da meia-noite. Vamos esquecer isso e tentar nos divertir. - Joker conclui apontando ao longe o relógio na torre da igreja que poderia ser visto de qualquer ponto daquele lado cidade.
Continuaram o caminho, não mais com a mesma alegria d’antes. Havia algo de estranho e Teka, de alguma forma, pressentia isso.
Não demorou muito para o pressentimento se tornar real. Mais dois quarteirões percorridos e novamente o riso insano irrompe a madrugada. Mais uma vez Pierrot gargalhava sendo seguido por Colombina, de riso agora irônico nos lábios, em silêncio os fitava.
Eles se entreolharam, incrédulos. Não era mais um casal fantasiado da mesma forma que o primeiro. Era o mesmo casal. Os mesmos malditos Pierrot e Colombina. A mesma maldita gargalhada sarcástica. O mesmo olhar os fuzilando. Ele ria, ela sorria. Pierrot zombava, Colombina incomodava.
- Não pode ser! São eles de novo. – Enfim George quebrou o silêncio – Como conseguiram dar a volta no quarteirão tão rápido?
- Sinistro isso. Parece que querem algo conosco. Mas o quê afinal? - Joker reflete, tentando encontrar alguma explicação para aquilo quando sente Teka lhe puxando pelas mãos. Os olhos da garota estavam vidrados, com medo, seus olhos fitavam o lado oposto. Fitavam o caminho por onde estavam seguindo.
- Isso é assustador. – Ela diz com os lábios trêmulos.
- É estranho, muito estranho, mas não chega a ser assustador. Um Magricela de um Pierrot retardado rindo igual hiena no cio e sua risonha namoradinha submissa. Que mal esses imbecis poderiam nos fazer? – Ronaldo conclui.
- Não. Não é isso! – Ela continua assustada – Olha o relógio da igreja. Ele está na mesma posição de antes... Ou melhor... Nós estamos no mesmo lugar!
- Isso é impossível! – Esbravejou Ronaldo tentando convencer a si mesmo que Teka estava errada. – Nós andamos umas duas ou três quadras. O relógio está mais perto, e estava mais para a direita. Com certeza!
Com exceção de Katy que ria e resmungava palavras ininteligíveis defronte uma loja qualquer, todos olharam para Joker que, pensativo, confuso, mantinha os olhos fixos no relógio. Esperavam ele pronunciar algo. O Coringa nada dizia. Até que Teka teve que intervir em sua concentração.
- Então Joker? Você foi o primeiro a ver as horas. O relógio está ou não no mesmo lugar?
- Não sei! Ele estava um pouco mais para a direita, eu acho. Não tenho certeza. Caralho! Há duas horas que estou bebendo e fumando sem parar, vocês acham que vou prestar atenção em posição de relógio? Essa porra estava mais para a direita, ou esquerda. Sei lá.
- Eu estou vendo ele ir pra direita... Ir pra esquerda... Direita... – Disse Katy, completamente fora de si.
- Tu ta chapada, Katy. Volta lá para o canto e continua falando sozinha. – Joker esbraveja apontando com o braço o local onde a amiga, poucos minutos antes, resmungava sem parar.
- Eu não! Cansei de chamar eles, mas os Baianos não acordam...
O grupo levanta os olhos para ler o nome da loja onde Katy estava: Casas Bahia.
- Ixi! Essa está “pra lá de Bagdá”. - Disse Teka.
Normalmente eles ririam do estado da amiga e de suas viagens alucinadas. Também estariam viajando com ela, mas não tiveram tempo de se drogarem o suficiente e todos aqueles fatos estranhos acontecendo os trouxeram, de forma súbita, de volta à lucidez.
- Não adianta ficarmos aqui parados. – Teka voltou a falar – Vamos para o bar do veneno, talvez seja mesmo maluquice minha isso. – Ela olha novamente para o relógio da torre e abana a cabeça repreendendo a si mesma por aquela idéia ridícula sobre estarem no mesmo lugar. – Devo estar ficando maluca, só pode ser isso.
O grupo segue em frente. Vários pensamentos passavam pelas suas cabeças. Duvidavam de suas sanidades. Calculavam e se culpavam pela quantidade de drogas e bebidas que já haviam consumido, não naquela noite, mas em todas as noites somadas. Talvez a vida ilícita e de excessos estivesse cobrando seu preço naquela noite. E tudo fosse apenas efeito do excesso de drogas alucinógenas que usaram nas várias baladas que perderam a razão.
Joker levava Katy pelo braço e os outros o seguiam em absoluto silêncio. Percorreram novamente exatos dois quarteirões. Os olhos estavam todos atentos no relógio da igreja e ele se aproximava conforme caminhavam. Tudo correndo dentro da normalidade esperada. Teka teve certeza de seu engano.
Quando dobraram a esquina Joker estacou no lugar.  Sua face empalideceu. Suas pernas tremiam. Soltou o braço de Katy e o pavor que lhe assomou o tirou completamente de si.
Seu estado súbito de extrema fobia de algo ainda desconhecido aos demais fez com que todos se apavorassem. Teka berrava desesperada para o amigo dizer o que ele estava vendo enquanto chacoalhava o braço deste com força. George e Ronaldo giravam a cabeça para todos os lados, procuravam pelo relógio, mas de onde estavam não conseguiam avistá-lo. Estava em alguma direção, encoberto por uma daquelas casas ou lojas. Os dois rapazes cessaram a busca pela torre quando ouviram um “ai meu Deus” soando da boca de Teka. Joker, com o braço levantado, indicava com o dedo uma loja localizada no meio do quarteirão por onde passariam. Na placa, um nome: Casas Bahia.
- Nã... Não pode ser! Não pode ser a mesma loja, gente! – Ronaldo não quer acreditar no que seus olhos lhe exibem – Se fosse a mesma loja, o Relógio estaria... – Ele diz caminhando célere até o meio quarteirão – Ali! ... Não é possível... – Empalidece, atônito. Ronaldo congela no instante em que, defronte a loja, olhou por cima das casas.
- O quêêê? Fala Ronaldo, pelo amor de Deus, o que você está vendo? - Desespera Teka.
- A torre, a maldita torre do relógio está ali, no mesmo lugar! Não pode ser...
Joker, desperto do transe fóbico, junto com George e Teka se apressaram para conferir o absurdo que Ronaldo dizia enquanto este disparou n’uma corrida insana pelo mesmo trajeto que já haviam percorrido antes. Correndo e gritando como um louco – Não pode serrrr. Não Pode ser... Eu não estou loucoo- E no momento em que os três amigos puderam ter visão parcial da torre da igreja, Ronaldo estava dobrando a esquina dois quarteirões abaixo para ressurgir na esquina anterior. Ele passou por Katy, que sentada na sarjeta vomitava nos próprios pés, sem dar a mínima atenção à amiga e seguiu aos berros ensandecidos em direção aos outros três, que sem se moverem, surgiram à sua frente.
- Nãooo, vocês não podem estar aquiiii!!! Não podem. Não podem...
A gargalhada insana novamente fora ouvida provocando uma explosão de fúria em Ronaldo que se virou imediatamente, ameaçando partir na direção do maldito Pierrot, mas foi contido pela mão firme de Joker em seu pulso fazendo-o parar repentinamente. Os três amigos novamente olharam para a face atormentada do Coringa. Ele não olhava para a esquina em que desaparecerá Pierrot e Colombina, ele olhava para a outra esquina...
- Katy... Onde está a Katyyy??? - Ele grita.
- Acabei de passar por ela. Estava ali vomitando...
Antes que Ronaldo terminasse a frase, Joker sai correndo sendo seguido por seus amigos, correu em direção à esquina que deixara a amiga passando mal. Olharam longe na rua por onde vieram, e até onde seus olhos alcançaram, não avistaram nem um sinal da garota.
Novamente o Pierrot se faz ouvir em sua gargalhada sarcástica. O grupo olhou para o outro lado, e já longe estavam o sinistro casal de foliões, e Colombina com o pescoço totalmente voltado para trás, não desviara o olhar dos jovens enquanto se distanciavam. Ela sorria, cínica, irônica. Colombina sorria.
Na certeza que aquele estranho casal tinha completa culpabilidade no desaparecimento de sua amiga Katy, os quatro se puseram a correr e bradar com fúria no encalço de Pierrot e sua amante Colombina.
Corriam, e, quanto mais corriam, mais o casal se distanciava até desaparecerem no dobrar de uma esquina.
Ao repetirem o trajeto na perseguição do sinistro casal. Os quatro amigos se depararam com um enorme casarão colonial, a cerca de uns 50 metros distante deles, d’onde a canção e os risos descontrolados entoavam de seu interior evidenciando que ali estava sendo palco de toda luxuria e promiscuidade digna de um verdadeiro baile carnavalesco.
Não havia mais nenhum sinal do casal na rua. O único movimento acontecia no interior daquele velho casarão...
- Eles entraram ali! – Afirmou Joker com tamanha firmeza em sua voz que ninguém no grupo fez sequer menção de questioná-lo.
Se dirigiram receosos, passos lentos, a euforia da perseguição havia cedido lugar ao medo e a ansiedade. Caminhavam se encostando uns nos outros como se buscassem por amparo e proteção.
Quando a velha porta de madeira do casarão surgiu detrás da pequena mureta que o encobria novamente a fúria tomou conta de Joker e Ronaldo, ao avistarem a porta de ébano e ao seu lado um corpo caído.
- Katy...
Correram ao socorro da amiga. Enquanto Teka se certificava que Katy estava apenas desacordada novamente ouviram o som esganiçado do maldito riso vindo do interior do casarão... O Pierrot gargalhava.
- Vamos pegar esse filho da puta! – Braba Ronaldo odiosamente.
- Calma! Tem algo de errado. Essa casa não existia aqui. – a percepção de Teka fora tardia. A ira que assolava os três amigos os ensurdeceram para a sua advertência.
Ronaldo forçou a maçaneta da porta encontrando a mesma destrancada. Os rapazes entraram no casarão dispostos a quebrarem todos os ossos do corpo do palhaço feliz e de quem mais se colocasse no caminho.
A porta se fechou atrás deles. Os risos cessaram, a música parou. De repente fez-se mórbido silêncio no interior do velho casarão.
- Ai meu Deus, algo está errado... Algo está errado...
Teka, apavorada, sussurrava repetidamente para si, segurando as mãos da amiga desmaiada.
O silêncio foi breve, mas para Teka ele pareceu eterno. Segundos perenes de sofrimento e angustia e o silêncio fora quebrado de forma aterradora. Gritos de extrema dor eclodiram de dentro do casarão causando calafrios por todo o corpo da jovem. Eram as vozes, os gritos de seus amigos. Gruíram uníssonos e novamente se fez silêncio. Teka, sem pensar em conseqüências e circunstâncias, adentrou ao casarão com o débil intuito de salvá-los de um perigo desconhecido por ela.
Teka entrou. A porta, sozinha, se fechou atrás de si. A jovem se viu num enorme salão festivo, completamente vazio. O local era bem iluminado por um enorme lustre de cristal pendurado no centro e dezenas de luminárias espalhadas pelos pilares que rodeavam a imensa sala. A iluminação, os pisos e azulejos, Teka sentia como se tivesse quebrado a linha do tempo e retrocedido direto aos anos vinte.
Não se deixando dominar pela exuberância do lugar, manteve o pensamento nos amigos em apuros e o medo a manteve em alerta, caminhando a passos cautelosos, ouvidos e olhos atentos para todo sinal ou som que pudesse indicar a localização dos três rapazes.
Quando a jovem se encontrava exatamente no centro da rosa de Sharon que os pisos desenhavam, as luzes se apagaram completamente e reacenderam n’uma fração de segundos, um flash rápido como um piscar de olhos, mas tempo suficiente para todo o terror surgir do solo aos pés de Teka e fazer-lhe quedar em gritos e choro histérico. No primeiro piscar de luzes Teka pode ver em pé em sua frente, na extremidade da rosa de Sharon, Colombina sorrindo maquiavélica e espalhados pela sala haviam outras pessoas fantasiadas. Todas riam em deboche.  No segundo piscar de luzes, o horror a engoliu, Teka se viu no centro da estrela de Baphomet desenhada à sangue, ornamentada por dezenas de velas vermelhas, viu seus amigos deitados aos seus pés, com os peitos desnudos e a pele deflorada formando a mesma estrela gravada numa ferida mortal no peito dos três jovens. E tudo desapareceu quando a iluminação voltou. Em pânico Teka olhava ao redor, aos seus pés e via-se apenas cercada pela bela rosa de Sharon.
A gargalhada do Pierrot soou de suas costas, Teka virou-se apavorada... As luzes se apagaram.
Um grito de horror tão estridente que retumbara como se saísse dilacerando a garganta de quem o gritara irrompeu a madrugada fazendo Katy despertar de seu estado entorpecido.
- Teka...
Ela levantou-se cambaleante. Sentia como se o mundo ao seu redor girasse. Viu uma porta aberta e sabia que o grito de sua amiga soara de algum ponto no interior daquela casa.
Mal ultrapassou o limiar da porta e a cena que encontrou no interior, no centro de um enorme salão de festas, lhe causou um pavor comensurável, sua garganta quis gritar, sua voz não saíra. Suas pernas trêmulas estacaram-se no lugar. Boca e olhos arregalados em pânico aterrador. Deitados no centro do salão estavam os quatro corpos de seus amigos devidamente posicionados com os pés virados para o centro de um circulo formando o desenho de uma cruz com seus corpos. Os braços abertos em posição redentora exibiam nos peitos desnudos a pele dilacerada como se um escultor das trevas, usando de um punhal, talhasse em suas carnes a estrela de Baphomet. Velas vermelhas os cercavam contornando outra estrela desenhada com o sangue das vítimas no piso frio.
Desfeita do choque inicial, Katy , com a mão na boca e olhos encharcados de lágrimas, caminhou vagarosamente na direção dos cadáveres de seus amigos. Quando olhou o rosto de Teka, ali sem vida. Vendo que a vida da sapeca e jovial amiga fora tirada de forma tão cruel, sua garganta se desprendeu e um grito de profunda melancolia irrompeu e seus joelhos dobraram em prantos.
O grito de Katy chamou a atenção de uma viatura policial que fazia a ronda nas proximidades. Se dirigiram com rapidez para o quarteirão de onde viera aquela lamúria e intuíram que só poderia ter vindo do interior das ruínas do velho casarão abandonado do Visconde de Rio Claro, com fama de mal assombrado e freqüentemente usado como antro sujo para viciados, ladrões e estupradores, o mesmo estava condenado a demolição com a data para a feita sendo adiada dezenas de vezes pelos conservadores políticos locais.
Os dois policiais de armas em punho invadiram o casarão abandonado encontrando uma jovem ajoelhada ao lado de quatro cadáveres, n’uma evidente cena de ritual satânico.
Encaminhada a delegacia e posteriormente interrogada, não relatou nada que pudesse esclarecer aquela terrível chacina. Os exames toxicológicos denunciaram o uso de álcool e drogas em demasia. Com os fatos contra si, Katy foi presa, julgada e condenada pela morte dos amigos. O advogado de defesa alegou que o ato fora cometido inconscientemente devido ao uso excessivo de LSD por sua cliente na noite fatídica.
Katy foi condenada a 20 anos de detenção e internação imediata numa clinica de recuperação de viciados, devidamente monitorada por policiais.

...

Um ano se passou. Um pequeno grupo de amigos dirigia-se em direção aos blocos carnavalescos. Completamente bêbados, riam e cantarolavam marchinhas antigas enquanto zombavam uns dos outros e gargalhavam com eufórica alegria quando outra gargalhada, mais aterradora do que as suas, os fez congelarem de espanto. Viraram-se para conferirem de onde viera o inusitado riso e viram cruzando a rua de um lado ao outro, um jovem fantasiado de Coringa e uma garota que, fantasiada de sinhá moça, saltitava e sorria enquanto o seguia.

Um Conto de Márcio Renato Bordin

Comentários 1 Comentário:

Victor Meloni disse...

Marcião, tenho que dizer: arrepiante! se nos colocarmos no implausível cenário, somos assaltados pela estriônica figura, posto que sua companheira, com os termos descritos, recrudesce-nos a aflição! Incrível!

11 de março de 2011 05:24

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