Mil Noites no Inferno

terça-feira, março 1




Diego despertara com o corpo todo suado.

- Que pesadelo estranho. – Ele pensou.

Sentiu todos os músculos de seu corpo doloridos. Mal conseguia abrir os olhos devido ao intenso clarão do sol matinal. Permaneceu alguns minutos mais, deitado a fim de repor as energias estranhamente não repostas após a longa noite de sono. Quando o torpor do despertar vai deixando-o, mesmo sem abrir os olhos, Diego reflete sobre os fatos em sua volta. Estranha os raios de sol clarear diretamente a sua cama.

- Será que a Joana abriu a janela do quarto? – Ele pensa - Ela sabe que eu odeio que abra a janela enquanto ainda estou dormindo.

Também estranha o leve balanço que a própria cama fazia de um lado a outro, o deixando nauseado. Lentamente, ele forçou seus olhos a abrirem, deixando que a íris se acostumasse com o fulgor que lhe penetrava cegando a visão.

Quando enfim conseguiu enxergar entre a luz incandescente que adentrava a janela, percebe que despertara n’uma rede feita de retalhos de couro. Uma rede aparentemente normal. Se não fosse o odor insuportável de carne putrefata, o líquido viscoso que escorria demasiadamente entre as costuras e por os pêlos ainda eriços, como se o couro costurado tivesse sido arrancado de seu dono, algum animal selvagem, há algumas horas.

Conferindo o seu pijama, preocupado por tê-lo sujo com o suposto sangue. Nota que suas vestes não só estavam completamente lambuzadas com aquele líquido vermelho escuro e pegajoso, como o seu pijama, com qual dormia todas as noites, não mais existia. Diego despertou vestindo pedaços do que outrora poderia ser chamado de smoking. Seu traje de gala favorito estava todo rasgado. As calças rotas se assemelhavam a bermuda usada por fedelhos pré-adolescentes, enquanto na parte superior, carregava um trapo que mal lhe cobria as costas e os braços.

Diego, com os olhos já acostumados com a luz ambiente, gira o pescoço pelo quarto. Não! Não estava em seu quarto. Viu-se no interior de uma choupana velha e aparentemente abandonada. Havia dezenas de vasos cerâmicos quebrados por todos os lados. Uma mesa de madeira corroída pelo tempo e estaria vazia se não fossem as teias de aranha que não só cobriam a mesa, mas tudo que se encontrava naquele pequeno antro dos diabos.

Fazia um calor infernal. Mesmo estando deveras atordoado com o novo mundo que lhe rodeava, Diego levantou da rede com um salto. Sua cabeça girou, nauseado, confuso. Tentava compreender o que lhe estava acontecendo, como ele tinha ido parar naquele local. Nada fazia sentido. Ele sentia sede. Muita sede. Seus olhos percorreram o local à procura de um vaso inteiro. Ele encontra apenas um. Sua garganta estava em chamas. Mais do que depressa ele se apodera do vaso e o chacoalha perto de seu ouvido. Sim. Havia líquido em seu interior, porém o odor que emanava desse líquido era horrível. Virou o artefato a fim de derramar um pouco do líquido no chão. Sentiu o estomago embrulhar ao ver escorrendo aos seus pés o mesmo líquido vermelho e viscoso que se encontrava na rede que acordara e por todo seu corpo. Não havia mais dúvidas. Se tratava de sangue. Fétido e viscoso sangue. Diego atira o vaso contra a parede, espatifando-o em dezenas de pedaços. Nota que entre a vermelhidão asquerosa que se formou no solo de areia, continha alguns caroços esféricos que não se desmancharam com o impacto.

Com um galho de arvore em mãos, remexeu cuidadosamente uma das esferas para livrá-la de toda gosma que lhe cobria. Um horror imensurável lhe invade a alma causando-lhe tamanha ânsia que Diego vomita ao descobrir que o escopo de sua curiosidade se tratava de um olho. Um olho humano!

Oito ao todo. Recorda-se de sua mulher e filhos. Desesperadamente corre para fora da choupana a fim de procurá-los. Deparou-se com um céu em chamas. Jactos de luzes alaranjadas cortavam um céu vermelho escarlate. Raios explodiam no firmamento n’um espetáculo de cores tão belo quanto torturante. Sentiu sua pele arder como se estivesse sendo consumido vivo por um fogo invisível. Seus pés descalços tornavam em carne viva, a cada passo dado n’uma areia escaldante como lava.

Ele não suportou. Seus joelhos se dobraram e Diego chorou. Chorou feito criança. Chorou por ver que areia e céu, o branco e o vermelho, se uniam n’um horizonte tão distante que mal seus olhos conseguiam enxergar, e até lá, tanto céu quanto areia exalavam um calor que só poderia vir da parte mais quente do inferno.

Aqueles olhos não lhe saiam da cabeça. Rastejando e ainda em lágrimas ele seguiu em frente, em direção ao horizonte infinito. Encontrava forças na lembrança de sua esposa e seus três filhos. Precisava encontrá-los para ter certeza que aqueles olhos não eram o que pareciam. Não eram os olhos de sua família...

Após percorrer de joelhos algumas centenas de metros que mais se assemelhavam com quilômetros, Diego avistou ao longe algumas árvores adustas, completamente desprovidas de folhas e frutos. Tinham os galhos negrumes entrelaçados entre si, formando uma escultura natural assustadoramente bizarra.

- Nas sombras. Eles estão nas sombras daquelas árvores. Estão se escondendo desse calor maldito. Estão nas sombras... – Ele pensou.

Ele rastejava. Suor vertia em seu rosto mesclando-se com as lágrimas que de seus olhos rolavam incessantemente. Chorava pela dor imensurável que sentia por todo seu corpo. Vermelhidão e queimaduras de primeiro e segundo grau se espalhavam por sua pele. Bolhas d’água surgiam em suas mãos e joelhos devido ao contato direto com a areia áscua e este mesmo contato as vazavam provocando ardências e mais lágrimas. Chorava por não saber o motivo desse pesadelo terrivelmente verossímil. E pelo medo de que o desconhecido paradeiro de sua família seja tão ou mais trágico que sua própria situação. Ele rastejava...

- Aqueles olhos... Nas sombras. Eles estão nas sombras...

Diego precisava seguir em frente, mesmo a vertigem e os lapsos de lucidez já lhe causando descrença sobre as informações obtidas de seus próprios olhos. Duvidara na veracidade das imagens que sua visão lhe exibia. E o calor exalando do solo distorcia a paisagem, corroborando com a condição entorpecida de Diego, davam às árvores esboços de miragem. Mas ele seguia em frente. Diego precisava seguir em frente.

Com o corpo castigado pelo sol, ele alcançou as árvores... Árvores sem sombras. Em desespero, se deu conta que a luz não irradiava de um ponto único no céu, o sol, e sim, do céu ao todo. Eliminando a possibilidade de haver sombras sobre àquelas árvores negras ou em qualquer outro ponto daquele inferno branco. Nem mesmo na cabana onde despertara, com enorme porta e janela, lá também a luz adentrava forte, iluminando praticamente todos os cantos da choupana, e Diego sabia que sua família não estava naquele lugar. Não era para onde deveria seguir. Ele gritava, sem obter resposta, pelos nomes de seus filhos e esposa. Gritava com as poucas forças que ainda restavam em seus pulmões. O calor demasiado escasseava o oxigênio e Diego já respirava com dificuldade.

Ele sentou-se encostado nas gigantescas raízes de uma das medonhas árvores. Tentou se lembrar da noite anterior. Recordou-se de ter chego à sua casa, acompanhado de sua bela esposa. Chegavam de uma festa havaiana. Recordou-se da festa. Ele havia bebido além de seu limite. Dançou com várias dançarinas contratadas para animar o evento. Perfeitas profissionais, juravam de pés juntos que eram realmente havaianas. - Se fosse uma festa do dia das bruxas, elas jurariam que iriam embora montadas em vassouras.- Ele pensou. Em certo ponto, suas lembranças se tornam enevoadas. Com falhas, recordou-se de uma discussão com sua esposa por causa de seu atrevimento com as dançarinas. Foi muito além de uma simples discussão. Lembrou-se de terem perdido a cabeça e de Joana lhe dando um tapa. Por puro reflexo, Ele também a esbofeteou, e um garçom vestindo trajes havaianos tentou segurá-lo. Porém, Diego, tomado de uma fúria incontrolável, o golpeou com um soco no rosto e teria espancado o pobre garçom, não fosse os seguranças chegarem às pressas o imobilizando com os braços nas costas. Recordou-se que o rapaz agredido pegou do chão a bandeja que servia os convidados e deixara cair quando tudo começou. Lembrou-se também do garçom, antes de se afastar, olhando em seus olhos e sussurrando algumas palavras incompreensíveis por Diego.

- Libo gabi sa ang impiyerno.

Aquelas palavras. Diego, quando as ouviu pensou se tratar de uma ofensa qualquer. Mas, em suas lembranças, as palavras sussurradas ganharam sentido.

- Libo gabi sa ang impiyerno.

- Mil noites no inferno. Foi isso que aquele maldito disse. Mil noites no inferno. Será que estou no inferno? É loucura! Mas esse calor, o céu insólito, essa sede me corroendo e... Nem sinal de água. Se este lugar não for o inferno...

Suas reflexões sobre sua atual situação foram repentinamente cortadas, quando Diego ouviu vindo de suas costas o som inconfundível das águas do mar. Seu tormento o impediram de perceber tal som antes. O som do mar. Tomado de súbita esperança e ânimo, ele levantou-se e correu tropegamente em direção à origem do som.

Ainda à distância seus olhos confirmaram a descoberta. Era mesmo o mar. Diego, à medida que se aproximava, notava que as águas possuíam tons vermelhos.

- É só o reflexo deste céu infernal. - Ele pensou.

Sentia com se carregasse o mundo sobre os ombros. Com se todas as forças da natureza empurrassem seu corpo contra o solo. Mas ele resistiu e alcançou à margem. E na margem, caiu novamente em prantos. Não se tratava do reflexo do céu. As águas realmente eram vermelhas, e seu odor insuportável não deixara dúvidas. Era um mar de sangue. Olhou para os dois lados e em ambos, areia e mar, se ladeavam até findarem no horizonte.

Angústia e desespero se uniram no âmago desse homem. De joelhos fincados na areia, lágrimas vertiam de seus olhos como chuva torrencial. Abriu os braços e atirou o corpo para trás, como n’um ato de entrega. Entregava-se ao seu destino, ao seu fim. Fitou o céu, e desta vez com fúria, repetiu aos berros, com toda a força que ainda lhe restara nos pulmões, a pergunta que não se calava em sua cabeça:

- Por quê? Diz-me! Por quê? Maldito...

- Diego... – Ele ouviu.

- Diego... – A voz sibilante chamando por seu nome vinha da direção do mar sangrento.

- Diego...

Com o uso de uma força além de seu limite, ele se levantou. Com dificuldade mantinha seu corpo semi-erétil.

- Diego...

Fixou sua vista no rubro mar, mas com a alta densidade daquele líquido podre, era impossível enxergar quem quer que fosse que estivesse lhe chamando.

- Diego... - A vozes continuavam a lhe chamar repetidas vezes. Eram vozes. Diferentes vozes, vindas de diversas direções do oceano pútrido.

- Diego...

Fixou com mais afinco seu olhar no mar. Notou com surpresa, o vermelho sujo e fétido, lentamente se limpando, tornando-se água cristalina. Vultos surgiram dentre as águas tão límpidas quanto água potável. Os vultos ganharam formas. Eram pessoas, dezenas delas, o chamando, sibilando seu nome. Algumas lhe acenavam com os braços estendidos. O chamavam. Diego olha diretamente no rosto de várias delas. Homens e mulheres. Crianças e idosos. Alguns carregavam no olhar pesado, tanta melancolia, tanta tristeza, que de súbito, Diego, ignorou a imensurável sede que ainda lhe corroia a garganta e retrocedera alguns passos ensaiando um afastamento, mas parou. Outras, muitas outras, daquelas pessoas sorriam. Os olhos brilhavam, irradiavam alegria contagiante. Os braços estendidos o convidavam para um abraço, num gesto de hospitalidade irrecusável.

Diego se jogou em direção às águas. Ignorando por completo os fatos insólitos e de modo sôfrego começou a beber aquele líquido como se quisesse sorver toda a água, que agora lhe banhava até a linha da cintura, n’um único gole. Iniciou levando o líquido, com as mãos em formato de concha, até a boca, não demorou e mergulhou o rosto no mar. Sua sede parecia insaciável. Quanto mais ele bebia, mais queria beber.

- Diego...

As vozes não silenciavam. Mas naquele momento, ele as ignorava. Precisava de água. Sentia sede. Muita sede. E a cada gole mais a sede aumentava. A água deslizava por sua garganta como se bebesse licor dos deuses.

- Dieg... - Repentinamente, as vozes cessaram.

Diego sente simultaneamente o terrível odor de podridão lhe invadir as narinas causando-lhe imenso torpor e, um gosto preencher sua boca e garganta de um líquido viscoso e pútrido. Abriu seus olhos com extremo pavor para constatar que a água em que tão sofregamente sorvia havia se sangüificado novamente. Náuseas, horror, desespero. Em vômitos e totalmente fora de si, ele se apressou para sair das águas rubras e fétidas daquele insólito mar. A passos Trôpegos, cambaleava, caia e levantava. Vomitando a cada novo passo. Com o rosto e corpo todo maculado de sangue, Diego se afasta do mar, volvendo em direção às arvores negras. Jogou-se, deitado de braços abertos, aos pés delas. Tinha os lábios trincados e secos, o corpo todo ardia com queimaduras e bolhas, sua sede lhe corroia a garganta, sua respiração estava fraca e seus olhos inchados jorravam lágrimas sofridas. Seu olhar fitava o céu incandescente, mas já não possuía forças para questionamentos. Seus olhos tentavam entender, seu corpo já havia se entregado.
De repente, ele avistou nos sinistros galhos das árvores, quatro corpos dependurados, enforcados. Corpos sem olhos, as orbes vazias o fitavam nos olhos. Sua mulher e seus três filhos... Mortos.

- NÃÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!

O grito explode em desespero de sua garganta, ecoando por todo o manicômio. Rapidamente uma enfermeira adentra ao quarto, seguida por outros dois enormes enfermeiros. Os homens o seguram com força enquanto a jovem lhe aplica uma injeção em seu braço.

Diego sente seu corpo pesar. Suas pálpebras vão se fechando abnegando a sua vontade de manter-se acordado. Um sono de proporção indizível lhe domina lentamente. Mas, ele consegue ouvir as últimas palavras da enfermeira para os dois homens, enquanto ela se retirava do quarto.
- Este maluco assassinou toda sua família. Mulher e três filhos. Foi algo brutal. Arrancou-lhes os olhos enquanto ainda vivos e depois os enforcou...

Diego despertara com o corpo todo suado.

- Que pesadelo estranho. – Ele pensou.

Sentiu todos os músculos de seu corpo doloridos. Mal conseguia abrir os olhos devido ao intenso clarão do sol matinal...

Um conto de Márcio Renato Bordin

Comentários 2 Comentários:

victor meloni disse...

Marcião, já havia comentado este "petardo" literário, lá no RL, mas o faço novamente. Angustiante, febril, atordoante, infernal!!! Isto sim é que é Geena!!!

23 de outubro de 2009 16:24
Celly Borges {Gisele} disse...

Márcio, conto adorável! Já tinha lido no Recanto, também... mas cadê conto inédito???

bjbj

23 de outubro de 2009 20:46

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