Cinzas

terça-feira, março 1

 







Joshua acende um cigarro. Um trago. Sente a fumaça invadir seu corpo. Sua filha chora. Sua mulher implora... O cigarro queima.

Outro trago. Todo o quarteirão já fora evacuado. Os policiais cercam a casa tentando manter os curiosos afastados. Os atiradores de elite posicionados em cima dos telhados vizinhos...
Joshua fuma.

Puxa mais um trago. Ato tão
prazeroso quanto nocivo. Não mais nocivo que seu calibre 44 que também cheira à fumaça. Acabara de ser disparada. Acabara de criar um cadáver.

O cigarro queima. Lentamente o sólido vai se tornando cinzas. Assim como a vida de
Joshua. Outrora tão sólida, agora, apenas cinzas. A felicidade é vista apenas nas fotos espalhadas pelo chão da sala... O cigarro ainda queima.

Outro trago. Um calmante em forma de fumaça.
Joshua nem ouve os gritos apavorados de sua esposa, que clama pela própria vida abraçada ao corpo inerte do amante.

Ele olha para o cigarro enquanto brinca soltando círculos de fumaça. Sua filha chora borrando a
maquiagem carregada em seus olhos. Uma maquiagem pesada o suficiente para disfarçar seus dezessete anos de idade, nas noites em que se prostituía em troca de drogas. E Joshua julgando que sua inocente filha, ficava até tarde nas casas das amigas... Apenas estudando.
Joshua fuma tranquilamente seu cigarro sentado em sua poltrona posicionada no centro da sala de estar, com a 44 pousada sobre seu colo. Os policiais se preparam para invadir. Os dedos dos atiradores de elite coçam no gatilho. O alvo está na mira.

Eles só estão esperando a ordem para dispararem... Mas não há sinal de perigo.

O cigarro chega ao fim. A ponta. A
bituca. Essa é a melhor parte. Tudo parece ser tão mais prazeroso quando próximo ao fim. O cigarro, a bebida... A vida

O sargento derruba a porta dianteira à ponta-pé, seguido por mais três soldados
rasos. Os outros adentram à residência pela porta dos fundos e janelas. Rapidamente cercam um Joshua inerte.

O cigarro ainda queima. Desesperada a esposa grita para todos saírem. Porém... Tarde demais.

Todos cercam um homem dando seu ultimo trago no cigarro, totalmente indiferente aos fatos ocorrendo em sua volta.

Só então percebem que pisam em solo molhado. Só então sentem o forte odor de combustível espalhado por todos os
cômodos... Tarde demais.
Joshua abre os braços como se saudasse a vida. Abraçando a morte. O sargento dá a ordem para todos saírem rápido de dentro da casa. Toda ação gera uma reação contraria de igual ou maior intensidade. Joshua de braços abertos empunhando o cigarro em uma das mãos e a 44 na outra, os policiais correndo desesperados. Os dedos nervosos dos atiradores puxam o gatilho.
Joshua tem o peito atingido. A pistola cai de um lado e a ponta do cigarro de outro. A brasa beija o combustível. O fogo é imediato. Rapidamente as chamas se alastram pelos cômodos. Os moveis se desmancham junto às carnes ainda vivas... Do pó ao pó.
Os gritos são abafados pelo ensurdecedor som do fogo furioso. Tudo se mescla numa terrível sinfonia.

A casa queima. A
maquiagem se desmancha. O rosto pintado se desfaz. A adultera abraçada ao corpo do amante. As chamas os unem para sempre. Difícil demais separar pó de pó.

Os retratos espalhados vão se tornando cinzas. Retratos de um passado feliz.
Joshua, sua amada esposa e sua doce e inocente filha. Retratos de um passado se tornam o que aquela felicidade ali estampada já se tornou há muito tempo... Apenas cinzas.



Um conto de: Márcio Renato Bordin

Comentários 3 Comentários:

Lino França Jr. disse...

Conto muito bom. Digno de ser publicado, como o será. Abraço.

21 de agosto de 2009 06:57
Celly Borges disse...

Adoro esse conto! (Quero um livro!!!) ^.^

21 de agosto de 2009 16:02
victor meloni disse...

É isto mesmo, Márcio. Sem digressões, um conto intenso, repleto de fúria e decidido! "Dificil separar as cinzas..." Candente!!!

25 de agosto de 2009 06:16

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