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Um presente para Elpídio






O sol ia alto naquele dia. O calor causticante não perdoava quem quer que fosse. As folhas das plantas estavam murchas, e murchos também pareciam estar os outros seres viventes. Alguns cachorros descansavam à sombra, sob as marquises, com suas línguas gotejantes penduradas no canto da boca. As crianças subiam a rua com suas pesadas mochilas e bochechas coradas. Algumas mulheres prendiam suas roupas ao varal. Era bom aproveitar enquanto a chuva não vinha. Os velhos... Ah os velhos! Alguns estavam sentados às praças, ou jogando milhos aos pombos, ou jogando damas com seus companheiros. Nem um desses casos era o de Elpídio.

Elpídio era um senhor que parecia ter uns cem anos, um dos mais velhos de todo o lugarejo. Mas nem ele mesmo sabia exatamente sua idade. Ficava o dia todo caminhando com dificuldade por aí, apoiando-se em sua bengala. Às vezes ficava na praça, ora assistindo aos jogos de seus amigos, ora conversando com alguém que atirava alimento para as aves. Na porta de um bar qualquer, chutava um cachorro que dormia tranqüilo, abanando a orelha para afugentar as moscas. Dali assistia as crianças retornarem da escola. Um mero espectador. Quisera ele ter tido netos, um cachorro ou simplesmente ter aprendido a jogar damas.

– Feliz aniversário Sr. Elpídio! – disse um vizinho. Ele respondeu com um resmungo qualquer. Para ele não havia motivo para comemorar.

Já havia tentado o suicídio várias vezes. Numa ocasião, amarrou a corda de sisal em um galho de um abacateiro, pôs o pescoço no laço e saltou. Depois de muito se debater e sufocar, sua vista turvou-se. Pensou que seria desta vez, mas... O galho não resistiu ao seu peso e quebrou. Lá se foram ao chão Elpídio, a corda e a madeira que antes de chegar ao solo já tinha atingido a cabeça do velho. Noutra vez, atravessou na frente de um ônibus no centro da cidade. O homem sentiu um estalo na cabeça e desmaiou. Acordou no hospital. Foi socorrido e não sofrera nada além de um osso quebrado... Na mão! Uma falange.

Sua ânsia pela morte era justificada pela vida que levava. Não havia conseguido nada de bom e ela parecia ser um grande sofrimento. Devia a tudo e a todos e sua aposentadoria mal dava para se alimentar. Se ficava o dia inteiro fora de casa, era porque sua permanência dentro daquelas paredes era um martírio. Na verdade, seus maiores problemas eram motivo tanto para matar-se como perambular ao léu. Surgiram há muitos anos...

– Mais um ano, hein Sr. Elpídio? Feliz aniversário! – disse outra pessoa, com uma entonação na voz como se falasse a um bebê. Isso era o mais ridículo de se envelhecer. Na maioria das vezes se é tratado como um recém nascido. Outra vez o velho rabugento nada respondeu.

Por trás daquela máscara de velhinho do interior, pacato, havia outra pessoa. Elpídio nunca foi um bom homem. Desde cedo aprendeu a roubar. Os artigos eram dos mais variados: Um lápis na escola, as frutas no quintal do vizinho, algumas moedas de sua mãe, o troco do dono do bar... Viciou-se nisso. Buscava sempre uma coisa de valor maior. Sua ganância por mais dinheiro e poder o consumia...

A primeira morte foi aos treze anos. Banhava-se à tardinha com um colega num riacho próximo de casa. Num mergulho do amigo, um grande volume de água atingiu seu rosto. Ficou furioso. Segurou a cabeça do outro imersa, até que ele parasse de se agitar. Soltou o corpo depois disso, e deixou que a corrente o levasse. Procuraram a criança por dias. Nunca ninguém desconfiou dele. Sua única testemunha tinha ido por água abaixo. Viciou-se nisso.

     Em certa época, algumas garotas do bairro sumiram misteriosamente. Elpídio sempre foi um belo jovem e não era difícil atraí-las para a mata ou lugares ermos. De posse de uma faca cortava o pescoço da vítima e banhava-se com o sangue que esguichava em jatos intermitentes. Acreditava que o líquido quente e vermelho o deixaria eternamente jovem... Desejava agora, não somente o dinheiro, mas a eternidade...

Foi assim por anos a fio. Uma das mulheres, antes de morrer, olhou-o com ira. Suas conjuntivas estavam raiadas de vermelho, devido à força que fizera para desprender-se do malfeitor.

– Vais me pagar desgraçado! – disse ela quase sem forças.

Foi então que seus problemas surgiram.

Não havia nada demais em sua rotina diária. Depois do trabalho, colocava uma boa roupa, tomava umas cervejas e lá pelas dez horas já estava deitado em sua cama, ressonando. Sua casa parecia serena... Nesta noite, quando o relógio de parede deu doze badaladas o inesperado aconteceu. Elpídio acordou com um choro insuportável. Esfregou os olhos e levantou, caminhando descalço em direção ao som. Afinal de onde viria? E quem era essa pessoa que estava aos prantos? Parecia ser de dentro de sua casa, mas ele morava sozinho... Então...

Chegando à cozinha avistou uma moça com uma longa camisola branca, com as mãos no rosto, soluçando de tanto chorar. Ele não pensou em nada e se aproximou.

– Quem é você? – disse ele. As lágrimas da mulher tocaram fundo em seu espírito como nunca qualquer coisa tinha feito.

De repente a mulher saltou sobre ele. Sua face transmudou de angelical para monstruoso em questão de segundos. Seus dentes pontiagudos buscavam a carne de Elpídio que lutava com todas as suas forças para livrar-se. As unhas negras da criatura estavam fincadas em seu ombro e a dor era fora do comum. Sentia o líquido quente escorrer pelas suas costas e o embate parecia não ter fim. Ela grunhia coisas inaudíveis ou incapazes de serem entendidas e seu hálito pútrido dominava as narinas do homem, causando engulhos.

– Eu não disse que ia me pagar, peste! – esbravejou o monstro no corpo de uma mulher.

Elpídio tinha o corpo cheio de chagas que latejavam fortemente. Acordou no outro dia sem uma sequer. As dores, porém, continuavam. Todos os dias sua angústia era a mesma. À meia noite, doze badaladas eram a porta de entrada das almas que ele havia despachado para o além mundo. A cada dia, mais uma se juntava à mulher que o tinha atacado a primeira noite. Tornaram-se dezenas.

Para fugir de seu destino trancava a porta de seu quarto, mas isso de nada adiantava. Quebrou o relógio, mas isso também não tinha efeito. Mudou de casa, enforcou-se, atirou-se embaixo de carros... Nada parecia solucionar seu drama. E todo dia que passava, toda noite mal dormida, todo ano que surgia, parecia mais tenebroso. Por isso não comemorava mais nenhum aniversário. E nesse não seria diferente. Preparou-se para o encontro que ele desejava ser o último.

Sentou-se à beirada de sua cama. Exatamente no horário de costume, sombras se esgueiravam pelos cantos das paredes e surgiam por baixo dos móveis. As pessoas atravessavam as paredes ou abriam a porta, entrando no cômodo para fazer-lhe companhia. Algumas caminhavam agachadas ao teto como aranhas... Enquanto uns choravam, outros esbravejavam maldições para Elpídio. Se ameaçasse retrucar, atiravam-se sobre ele, arranhando e mordendo, arrancando-lhe pedaços de carne. Por um momento desvencilhou-se. Estava desesperado. Suas mãos enrugadas e trêmulas empunharam uma pequena faca cortando os pulsos. Tudo estaria terminado, mas para sua surpresa, não sangrou uma gota sequer.

– Ah... Então é este o presente que quer este ano? A morte? – disse uma das almas, gargalhando insanamente.

O velho então sentiu uma forte dor no peito. Curvou-se até o chão, babando e gemendo. Olhava suplicante para as almas que sorriam. Tinha os olhos marejados e estava ofegante. Sua vista foi escurecendo lentamente. Seu braço esquerdo tinha adormecido, bem como todas as extremidades de seu corpo. Deitou ao chão sem forças e sorrindo. Finalmente estava tudo acabado!

Abriu os olhos lentamente. Estava em uma assustadora e espessa escuridão. Percebeu que não respirava, não tinha mais necessidade disso. O frio parecia atingir-lhe os ossos e passou a mão na pele, para se aquecer, sentindo feridas purulentas que doíam mais do que antes. O cheiro de podre empesteava todo o ambiente. Ouviu gargalhadas que ecoavam distantes como em uma caverna de mármore.

– Ora Elpídio... Não achou que faltaríamos à sua festa, não é?

– Não! Por favor, não! – gritava ele, chorando, enquanto sentia seu corpo ser devorado por todos os lados.

– O teu presente somos nós. Feliz aniversário...


Um Conto de George dos Santos Pacheco

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O Beijo (Conto Delírico)




Para Roger e Henry.





           Quando finalmente me aproximei de Camilla – oh! como hei de me esquecer? – algo de invisível sustinha as nuvens adensadas, pesadas e sinistras. Havia uma dança macabra num céu de chumbo. Uma massa de vapores escuros contorcia o firmamento, onde a lua adernava na correnteza atroz dos cúmulos e nimbos convulsos. Num último espasmo, algo rompeu a tênue película que separava o tumultuo do céu da tranqüilidade da terra. E uma torrente fria, caudalosa como um rio que se precipita em cascatas, desabou violentamente sobre nós.





          Olhei para Camilla, admirada. A água, que penetrava em seus cabelos como agulhas regeladas, escorria por sua face em múltiplos e estreitos córregos, e velozmente diluía o halo sombrio que embaçava o seu lindo semblante. O que se revelava era algo que transcendia à beleza. Algo mágico e violento, que fez o meu coração cintilar, pôs minha voz a estremecer; e que induziu as minhas mãos a expulsarem gestos involuntários.





         Eu não percebia que a tocava. Mas sentia os seus dedos molhados afundarem em meus cabelos delicadamente. Nossas faces estavam juntas, encharcadas de água e de delírio.





          Nossos lábios se tocaram. Ela sussurrou o meu nome





         (Carolline...)



 e eu o dela





 (Camilla...).





 Seu espírito penetrou em minha boca e eu me vi dentro de sua alma.





 Era o beijo.





            Era o precipício.





            Era a delícia.





 Era o horror.





             Mergulhei na alma de Camilla. Percorri o antro adensado de sombras e de miasmas. Vaguei pela delícia dos vales lodosos e pela volúpia de pântanos desolados. Muito de minha essência dissolvia-se naquele labirinto tenebroso e deixava-se capturar pelas viscosidades dos caminhos tortuosos. E nos confins de sua alma eu experimentei  a aspereza doce dumas asas negras, que alçavam vôos nas profundezas e se recolhiam sobre mim  num abraço fatal.





              Meu corpo tremeu. Algo de muito precioso me fora furtado naquele beijo!





               Aos poucos, minha alma voltava ao corpo com uma súbita sensação de estranheza. Aquele não mais era o mesmo corpo que servira de morada à minha alma... E nem era aquela a alma que dantes animava o meu corpo. Porque a minha alma, contaminada pelos vales lodosos e pântanos desolados, mergulhara num corpo lacerado pela decrepitude.





               O abraço de Camilla afrouxou. Minhas mãos, arruinadas, tombaram inertes. E o que veio foi a queda, o desprezo e a desolação.





               Vi, da profundidade de meus olhos opacos, que Camilla se afastava de mim. E que se ia mais bela do que antes! E que levara de mim a minha juventude e a minha formosura, que avidamente acrescentara à sua beleza deslumbrante, alongando os seus anos na proporção da minha idade perdida!





               Ó, belo demônio! Súcubo encantador, que nos rouba o encanto da face e nos impõe o semblante de um demônio! Por que não acreditei em tua existência?





               Pois já não era sobre a maciez da pele que a torrente despejava-me toda a fúria. Ela percorria velozmente a miríade de rugas crespas, agora irremediavelmente escavadas na face. A água fria enchia e transbordava as órbitas duns olhos fundos, fluindo e rastejando como víboras para o poço fundo em que se transformara a minha boca.





                Camilla se foi.





               Agora serão outras as belas jovens que sentirão o estigma de um beijo doce e traiçoeiro, e provarão a delícia do furto imediato das próprias beldades. 





  E, em meio ao horror que era a visão de minhas  mãos e braços enrugados, eu alongava os olhos cavernosos, procurando capturar-lhe pela última vez a bela imagem, até escravizá-la no fundo das retinas.  Porque, se pudesse ter de volta a beleza e a juventude tão de súbito arrebatadas, eu as daria novamente por outro beijo de Camilla.


Um Conto de Paulo Soriano
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Os Crucificados e Os Enforcados

 

Conta-se que no ano de Tibério César, Imperador Romano, houve um dia em que, após tumultuado julgamento e dolorosas agressões físicas, arremeteram o Nazareno à cruz. Conta-se, também, que após a crucificação do Galileu, a escuridão sobreveio assustadoramente rápida sobre Jerusalém. Um pouco antes do ato punitivo, a multidão já estava extasiada. Uns deleitavam-se e proferiam escárnios, outros pareciam sofrer com os momentos que precediam a execução da pena imposta por Pilatos. No cair da escuridão, os ventos trouxeram – com sobrenaturais silvos - a certeza do enorme erro que Roma havia cometido. O céu desabou em águas. Referência maior, só no dilúvio, cujo personagem principal chamava-se Noé, o anunciador da Justiça. Os que espezinhavam os cadáveres nas cruzes correram, impelidos por desmedido pavor. Os que sofriam por vê-los em funesta situação foram alentados pelo cumprimento da Profecia.

Tudo aconteceu no exato momento em que o Messias entregou sua alma. No afrouxar do delgado pescoço, onde a cabeça, laureada por indignos espinhos, pendeu inânime. Antes da imensurável escuridão, viam-se as silhuetas dos corpos crucificados recortadas pelo sol. A do Rei de Israel era a mais elevada do Calvário.

Maria, abismada com tamanha flagelação, quase não suportou a indescritível dor de ver seu filho sem vida, esticado na cruz romana. Os onze mais Maria Madalena partilhavam, com a outra Maria, o horrível sentimento, porém em diferentes escalas de intensidade. Alguns apóstolos rememoraram a agonia do filho de Davi ao orar com fervor em Getsêmani, pouco antes de sua captura.

Judas, o mendaz, havia cometido suicídio há algumas horas. Um famoso homem vira seu corpo pênsil, atado pelo pescoço com imunda corda, num dos ressecados e largos galhos de uma figueira, localizada em deserta estrada. A barba ainda ostentava o grosso sangue que fora expulso nas tosses e convulsões antes de a morte se avizinhar. Ninguém o viu. A isto, souberam por intermédio do homem que havia retornado à cidade para acompanhar a crucificação.

Os três soldados romanos, que receberam a incumbência de vigiar os corpos dos crucificados, acovardaram-se ao virem, com tamanho espanto, as estranhas formações que se manifestavam no céu. Assim os guardiões de Roma fugiram e, sorvidos pelo mais puro terror, deixaram os contritos de coração a chorar os executados sob o estranho fenômeno que a tudo escurecera.

O prestigiado homem que trouxera a notícia do enforcamento de Judas Iscariotes, trilhou o mesmo caminho ermo na alvorada seguinte, a fim de sair da cidade. Eis que, com inconcebível horror, constatou que os mesmíssimos três soldados romanos – o centurião e mais dois – os quais foram destacados para “proteger” a morte de Cristo, haviam se juntado a Judas. E com medo julgou ter escutado, por questão de segundos, os estertores dos quatro enforcados. Então, conduzido pelo assombro, regressou a Jerusalém, participou o ocorrido aos seus conhecidos e sumiu. Desde então, Barrabás nunca mais foi visto. 

Um Conto de Luciano Barreto
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O Conde de Moldávia





A angústia ainda insistia em infernizar meus instintos. Passaram-se quarenta anos desde que decretei o fim do Conde da Moldávia. Recordo com amargura de todos os episódios daqueles vinte e sete dias, em que caçamos a terrível criatura noturna, sem descanso. O maldito refugiava-se nos lugares mais remotos e de difícil acesso. Foi assim, em Bucareste, Praga, Dublin e Colônia, mas, o Conde não resistiu em voltar ao seu esconderijo original, após perceber que nossa caçada seria árdua.
Em 1956, fomos contatados por um grupo de cristãos aflitos de Kishinev, capital da República da Moldávia, com o intuito de dar fim a tenebrosa carnificina que se abateu nos condados à leste da capital, em razão da sede insaciável do Conde Draculnov. As vítimas, por conseguinte, eram sempre encontradas com todo ou quase todo o sangue drenado do corpo. Não foi difícil reconhecer seus rastros, mediante sua forma característica de agir. Os clássicos sinais de pequenos orifícios no pescoço, pulso, ou até mesmo na virilha, não nos deixava em dúvida. Aquilo era obra de um vampiro.
Com o apoio de alguns aldeãos locais, que dispostos a acabar com a trágica sina do lugarejo, não me custaram tão caro quanto imaginava, devido aos perigos envolvidos, partimos em busca das primeiras pistas do Conde. Seguindo minha própria natureza de caçador, me dei conta que sempre estávamos dois dias de desvantagem em seu encalço. Túmulos foram escavados. Escrituras foram traduzidas. Invadimos monastérios e vasculhamos sórdidos túneis, na incansável busca pelo demônio. Apesar da fuga, a necessidade de sangue do vampiro também urgia, e esse foi seu pecado. Pois começamos a seguir a trilha de cadáveres que este deixava pelo caminho. Em Dublin, tivemos a grata surpresa de encontrar catacumbas recém reviradas, o que nos dava a exata noção de que o conde procurava abrigo nos lugares mais sombrios e inacessíveis. O ser perverso fez considerável baixa em nosso grupo de trinta homens, pois foram dois os encontros que tivemos com a fera. Ele sempre saiu em vantagem, deixando para trás muitos de nossos homens dilacerados por sua fúria incontrolável. Quanto mais acuado era, mais perigoso se tornava.

O desespero do Conde em chegar a todo custo em seu refúgio, o Castelo de Vaslui, fez com que ele não se apercebesse de todos os cuidados para nos despistar. Através de valiosas informações de sobreviventes que ousaram transpor seu caminho, nos antecipamos a ele, já percebendo seu intento em voltar para o Castelo. Desta forma, preparamos uma surpresa fatal ao Conde Draculnov, que após uma árdua perseguição, não sem antes vitimar outro grande número de homens que tiveram suas cabeças decapitadas, chegamos ao seu abrigo, no porão do castelo, seguindo trilhas de archotes presos às paredes que mal iluminavam os degraus cravados de musgos e presenteados por todo sortilégios de pestes, como baratas, ratos, pequenos répteis, além do terrível ar fétido que inundava o lugar em toda a sua diminuta dimensão.
Lá embaixo, um pesado sarcófago, feito pelo mais negro dos mármores, aguardava a chegada de seu dono.
Salpicamos, no interior de seu local de repouso, água benta retirada de uma das igrejas católicas ortodoxas em nossa passagem por Bucareste, na Romênia. Preenchemos os quatro cantos do porão com homens armados com estacas afiadas de carvalho, espadas e adagas, e usamos colares de alho com as cabeças do tamanho de maças, além de lenços de seda embebidos em água benta.

O maldito não tardou em buscar seu túmulo de descanso, mas o vampiro não teve tempo de recarregar suas energias. Adentrou ao mal iluminado cômodo. Seus movimentos eram tão leves, que nos surpreendemos com sua chegada, pois sequer ouvimos seus passos na escada nefasta. O Conde, sagaz como um lobo do mato, sentiu nossa presença quase que de imediato em sua alcova. Um dos homens não se conteve em aguardar minha ordem para o iminente ataque, e partiu para cima do vampiro de modo aparvalhado. Como imaginado, o Conde não teve trabalho em se desvencilhar do seu oponente, o arremessando com violência contra a alta parede de pedra lateral. Para nosso azar, era exatamente a parede na qual pendia um imundo castiçal, que para nós servia como a única fonte de luz daquele ambiente funesto. Então, a escuridão nos invadiu trazendo o desespero e medo aos homens que assim, colocavam toda a sua coragem e avidez à prova. Pelos gritos desesperados dos homens em meio à total penumbra que nos cegava, só pude pensar em algo que não fazia jus a minha forma de agir, mas mediante ao total negrume e perigo real, gritei aos homens para que atacassem todos de uma vez. Lancei mão da garrafa que carregava no cinto de couro e espalhei todo o seu conteúdo para cima, fazendo a água benta bailar no ar na esperança que algumas gotas pudessem fazer o máximo de malefício ao Conde. Minha estratégia, ainda que mal feita, deu resultado. O grito pavoroso de dor do vampiro rompeu o ar, e nos ajudou a imaginar sua localização. Com passos trôpegos, bati com as pernas naquilo que parecia ser seu sarcófago e caí no chão, perdendo minha afiada lança de carvalho por um breve momento. Tateei o chão na procura incansável de minha arma, mas o que encontrei foi a mão gelada e torpe do Conde. Por puro reflexo, tentei puxá-la ao meu encontro, mas o vampiro agarrou meu pulso com força e cravou as unhas afiadas na minha carne, fazendo meu sangue brotar como vapor incandescente. Após isso, só tive a certeza de que o vampiro estava imobilizado depois que dois de meus homens caíram por cima do corpo gelado do monstro, fincando-lhe duas estacas, uma no estômago e outra certeira, direto em seu coração negro. Somente assim, senti seus compridos e nodosos dedos afrouxando meu punho.

Com muita dificuldade, conseguimos tirar o corpo pesado do Conde daquele sepulcro e o carregamos através dos cavalos que nos serviam de montaria em toda a caçada.
Depois deste encontro, inexplicavelmente fui acometido por um sem números de doenças, que me debilitaram por completo, não me deixando lograr participação nos ritos finais para matar o vampiro definitivamente. Além de mim, apenas outros quatros bravos caçadores restaram para terminar o serviço árduo. O que sei, é que fiquei acamado por quase um mês após a nossa bem sucedida batalha. Uma violenta pneumonia, devido ao frio causticante do inverno europeu, me derrubou, mas em pouco tempo fui capaz de voltar pra casa com a quase certeza do dever cumprido.
Antes de voltar para Viena, ainda me encontrei com meus quatro companheiros de peleja que me relataram ter finalizado todo o cerimonial, dando descanso eterno ao vampiro. Estranhei apenas, que enquanto me narravam o ocorrido, nenhum deles foi capaz de me olhar nos olhos.

O tempo passou, mas aquela velha sensação de que algo não havia sido devidamente terminado me perseguiu por todos estes anos.
Somente agora, depois de ter completado setenta e tantos anos de vida, é que tive a coragem, se é que assim posso dizer, de voltar para a Moldávia e caminhar por suas estreitas e sombrias ruas e vielas. Há uma espécie de feira permanente na cidade, pois a lenda do Conde Draculnov ganhou as fronteiras do país, fazendo com que os vizinhos europeus viessem conhecer aquele que foi o lugar de tantas desventuras do terrível vampiro e da audácia de seus caçadores dando fim ao seu reinado de tormento, e assim os moradores locais mantêm algumas festividades para os convidados estrangeiros, aproveitando-se para ganhar algum dinheiro, com quinquilharias de recordação aos visitantes ávidos pelas histórias que são aumentadas ano após ano.
Passo pelas pessoas interessadas nos artigos das barracas, caminhando com dificuldade e sempre apoiado na minha velha bengala de madeira de carvalho.
A sensação de estar sendo observado me invade. Há algo errado. Paro e olho para trás sentindo uma presença familiar bem perto de mim. Não o consigo ver, mas sei que ele me acompanha com os olhos sem pestanejar. Continuo andando em meio a toda gente, que parece não perceber minha aflição. Levanto a gola de meu casaco, como se isso pudesse deter o possível ataque que estou prestes a sofrer. No limiar da minha velhice, talvez seja o momento de partir deste mundo. Quem sabe não tenha chegado a hora da tão aguardada vingança do Conde. Quem sabe, eu ainda não seja brindado com a vida eterna, como por prêmio por reencontrá-lo depois de tantos anos, e por ter sido um valoroso oponente. Afinal, ao que me parece, ele manteve-se sempre aqui, como a esperar pacientemente o meu retorno.

Um Conto de Lino França Jr
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Aos Pés de Cristo




Sinto o sol queimando em minhas costas. Minha pele arde, minha carne está em chamas. O suor verte de minha testa turvando minha já ofuscada visão. Sinto meu corpo pesado, entorpecido. Não sei como vim parar aqui, nem mesmo sei dizer onde exatamente é aqui. Tudo que me lembro é de estar no imundo quarto cujo qual pelo governo à mim foi designado, sentado sozinho em minha cama maltrapilha, aguardando o vil carcereiro vir me buscar para que se execute a sentença à qual fui condenado pelos servos de satã.

Sou um homem de Deus, um instrumento de sua vontade. Todos que se levantam contra mim, estarão se levantando contra nosso criador. Sei que minha condenação injusta é Deus colocando meu amor à prova, assim como já fizera antes com Jó, Abraão e muitos outros. O pai submete seus mais amados e leais filhos às provas de fogo a fim de testar até onde vai nossa fé e lhes garanto que a minha é incomensurável.

É isso, só pode ser isso! Antes de me conceder a eternidade no paraíso, terei que passar por mais esse martírio. Sinto como se todos os meus ossos estivessem quebrados. Meus joelhos ensangüentados fincados no solo, com as mãos apoiadas no chão eu sinto que toco em areia escaldante. Vagarosamente eu tento abrir os olhos, deixando que minha visão se acostume com esse intenso fulgor.

Surge em minha frente a imagem de um homem, um santo. Eu vejo um cristo crucificado. Em seus lábios um estranho sorriso sarcástico. Seu olhar me fuzila, penetra em minh’alma. Sinto-me nu, fraco, desprovido de qualquer defesa. Sinto-me sendo acusado, julgado e sentenciado. Nos olhos de cristo, um tribunal castigadoramente silente.

- Qual é meu crime? ...Meu pecado? ...Pelo o que estou sendo julgado?

Ele nada diz. Minhas perguntas não foram ouvidas. Cristo continua silenciosamente me fitando nos olhos. Fui eleito rei. Coroado, uma coroa de espinhos em meu crânio fora cravada. O sangue se mistura ao suor escorrendo por minha face. Sinto que meu cérebro vai explodir. Milhões de sinos batem às doze horas diurnas dentro de minha cabeça. Algo ensurdecedor, aterrorizante.

Pensei em correr... Eu corri... Pensei em fugir, me esconder... Eu fugi.

Corri... Suei... Cansei... Sangrei...

Quanto mais eu corro, me distancio, mais percebo que estou no meio do mais absoluto nada. Até onde meus olhos alcançam tudo que vejo é areia e mais areia, por todos os lados apenas um branco e escaldante manto cobrindo toda a terra. E o sol quase que tocando o solo num beijo tão belo quanto torturante. Com as pernas cambaleando, eu caio, e de novo me vejo de joelhos, aos pés de cristo crucificado. Como se tivesse percorrido centenas de metros sem sair do lugar. Ele ainda sorri; macabro, perverso. Uma dor insuportável começa a invadir meu corpo. Sinto como se minha carne estivesse sendo rasgada, atravessada por um instrumento letal. Minhas costelas bruscamente perfuradas. Sinto como se uma pontiaguda lança penetrasse o meu ser. Quase desfalecido.

Eu chorei... Eu clamei... Eu orei...

Dessa vez minhas preces foram ouvidas, respondidas. Como resposta todos meus pecados foram-me demonstrados. Pecados que até então julguei não possuir. Cadáveres surgiram por todos os lados, brotavam da terra ao meu redor. Vi-me cercado por um nefasto jardim humano. Tantos sorrisos apagados, tantos sonhos encerrados, tantas vidas que eu tirei.

Cristo ainda sorri... Malicioso... Sarcástico... Irônico...

Ri da própria dor, agora refletida em meu corpo...

- Matei por ti, senhor... Matei por amor à ti...

Ouço uma voz sofrida. Cristo fala em minha mente, enquanto à minha frente seus lábios ainda se mantinham estáticos em debochado sorriso.

-Matas-te por mim? Eu morri por você... E por amor á mim o que fizeste? ...Matas-te?

Os cadáveres à meu redor começam a ganhar vida. Seus corpos ainda mantêm o horrendo estado de putrefação. Levantam, cercam-me, envolvem-me em um circulo humano, tal qual fazíamos em nossas reuniões. Tal qual fizemos ao redor de cada uma dessas pessoas agora sem vida quando tentaram deixar nossa amada “igreja do cordeiro de Deus”. Foram submetidas à expiação de sangue como manda minha doutrina. Só assim herdariam o reino de Deus na terra.

- Foi por ti, senhor...

Os mortos, zumbis, sacaram adagas. Pouco a pouco o circulo funesto foi se fechando sobre mim. Senti meu corpo sendo perfurado dezenas de vezes por lâminas frias. Uma dor mortal toma conta de mim, mas apesar de sentir a morte, eu não morri. Eu pedi para morrer. Clamei ao pai que me tirasse a vida, implorei. Meu pedido não fora ouvido.

Ouço uma voz ao longe dizendo um simples “Amém”. Levanto aos poucos minha cabeça. A voz que pareceu vir de longe veio de um presbítero em pé ao meu lado, bem próximo de mim. Olho ao meu redor, não vejo mais os cadáveres, nem mesmo cristo. Vejo apenas dezenas de pessoas sentadas em poltronas à minha frente. Seus olhares são de ódio e satisfação. Eu os reconheço, cada um deles, são parentes dos irmãos que tiveram a vida tirada por mim, os mesmo que me cercavam à poucos minutos. Aguardam ansiosos o momento em que o meu algoz levantará a alavanca eletrificando a cadeira donde estou sentado. Não estou com meus sentidos normais, mas eu sinto o ódio que exala dessa perversa platéia.

O momento chegou. A alavanca foi suspensa. Em segundos meu corpo é eletrificado, meu cérebro frita. Minha vida deixa meu corpo transformado-o apenas em matéria. Um pedaço de carne torrada jogada à frente de um povo impiedoso. Vejo-me novamente aos pés de cristo. Agarrado pelos corpos pútridos. O filho do criador não mais sorri sarcasticamente. Agora cristo gargalha, sua maquiavélica risada ecoa por todos os lados. Um precipício se abre logo atrás de mim. Os cadáveres me arrastam em direção ao imenso buraco no solo. Eu reluto, em vão. Eles são muitos e quase não tenho forças. Sou levado. Afasto-me sem desviar os olhos de cristo. A gargalhada cessa, mas ele ainda sorri; irônico e sarcasticamente.

Todos os zumbis se jogam buraco negro adentro me levando junto deles arrastado pelos braços. Meu corpo cai. Imergindo de encontro à plena e absoluta treva. A caminho do fim. Séculos em queda para um destino ainda pior. Onde pela eternidade queimarei nas labaredas do inferno. Mas sei que a minha fé... Está apenas sendo testada

Um Conto de Márcio Renato Bordin.

 

Dezembro 13 © Copyright 2010

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