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O Riso do Pierrot







Ronaldo ajustava pela milésima vez o chapéu de pirata em sua cabeça pequena; alugara uma fantasia grande demais para seu corpo franzino. George, sufocando com a fumaça do bagulho que fumava, ria de si mesmo dando nós extras para tirar a frouxidão do elástico em sua máscara de Batman. Katy, fantasiada de palhaça, tomava mais um LSD, ou, mais um doce, como eles chamavam a droga. Fábio, defronte ao espelho, dava uns últimos retoques em sua pintura de Coringa, fazendo jus à alcunha pela qual era conhecido: Joker. Enquanto Teka em seu vestido florido, chapéu e sombrinha, dançava e saltitava pela sala, no melhor estilo sinhá-moça.
Estavam todos quase prontos para o tradicional desfile da banda do veneno que há vinte cinco anos antecede o carnaval na cidade de Rio Claro, interior de São Paulo.
Quando os amigos já estavam devidamente fantasiados, se serviram de mais uma rodada de vodka com energético e saíram para a rua dançando e cantando marchinhas antigas de carnaval. Entre “mamãe eu quero” e “será que ele é”, o bagulho foi queimando, ecstasy sendo tomado junto a boas doses de vodka e energético. Katy abusava do LSD e esse fato não pode deixar de ser notado por Joker, que chamou-lhe a atenção em relação ao uso excessivo da droga.
- Katy, pega leve com isso aí. A noite nem começou e você já tomou mais do que nós quatro juntos.
- Aaahhh se liga, meu! Deixa eu curtir a noite. Quero fechar meus olhos lá e viajar, imaginar que eu estou numa rave fodástica.
Joker apenas abanou a cabeça n’um gesto de reprovação.
A pequena caravana seguiu pela avenida vazia, como donos da noite, cantavam e dançavam, bebiam e se drogavam. Seguiam seu rumo com uma única preocupação, a de se divertirem até não mais agüentarem. Quando ouviram um esganiço gargalhar entrecortar a madrugada. E n’um gesto simultâneo, todos silenciaram e se voltaram, com os olhos a buscarem pela origem da inusitada gargalhada.
Viram ao longe, cortando de um lado a outro da avenida, um rapaz rindo em demasiado júbilo, fantasiado de Pierrot, seguido de perto por sua Colombina; esta não ria. Eles puderam perceber que, diferente do seu par, ela também os observava. Surgiram n’uma esquina e até desaparecerem na outra, o Pierrot gargalhava, e Colombina, apenas com um leve sorriso nos lábios, não desviara o olhar do grupo de amigos.
- Ih! Esse está mais chapado do que nós. – Disse Katy, fazendo com que todos caíssem em gargalhadas.
Se pondo novamente a cantar e dançar, o grupo prosseguiu seu caminho em direção à esquina do Veneno, bar que originou a banda e onde se inicia o desfile pré-carnaval.
Dois quarteirões de caminhada e o som de “a pipa do vovô” fora cortado pela estridência do mesmo gargalhar de alegria insana. O canto do grupo cessou abruptamente. Todos se voltaram para assistir a mesma cena melancólica. O mesmo Pierrot gargalhava sendo seguido por sua Colombina que sorrindo apenas os fitava em silêncio. Pierrot gargalhava, Colombina sorria. Ele debochava, ela instigava.
- Que louco isso! - Exclamou Joker surpreso com o Dejà vu.
- Eles estão andando em círculos? - Inquiriu Teka quase que para si mesma.
- Acho que estamos doidões e vendo coisas. É carnaval gente, tem milhares de Pierrôs e Colombinas por aí. – Disse Katy rindo sozinha, mal agüentando em cima das pernas. - Vamos andando pessoal. E George, me deixa dar uma bola nesse bagulho aí. Hoje quero ficar doidona!
- Você já está doidona. – Observou Joker – Mas deve ter razão. Está cheio de Pierrôs e Colombinas por aí essa madrugada. Não pode ser o mesmo casal.
- Mas e o riso...
- Vamos! - Teka foi interrompida pela voz autoritária de Joker - Katy tem razão, já estamos chapados. Já são 23:45 e quero estar lá antes da meia-noite. Vamos esquecer isso e tentar nos divertir. - Joker conclui apontando ao longe o relógio na torre da igreja que poderia ser visto de qualquer ponto daquele lado cidade.
Continuaram o caminho, não mais com a mesma alegria d’antes. Havia algo de estranho e Teka, de alguma forma, pressentia isso.
Não demorou muito para o pressentimento se tornar real. Mais dois quarteirões percorridos e novamente o riso insano irrompe a madrugada. Mais uma vez Pierrot gargalhava sendo seguido por Colombina, de riso agora irônico nos lábios, em silêncio os fitava.
Eles se entreolharam, incrédulos. Não era mais um casal fantasiado da mesma forma que o primeiro. Era o mesmo casal. Os mesmos malditos Pierrot e Colombina. A mesma maldita gargalhada sarcástica. O mesmo olhar os fuzilando. Ele ria, ela sorria. Pierrot zombava, Colombina incomodava.
- Não pode ser! São eles de novo. – Enfim George quebrou o silêncio – Como conseguiram dar a volta no quarteirão tão rápido?
- Sinistro isso. Parece que querem algo conosco. Mas o quê afinal? - Joker reflete, tentando encontrar alguma explicação para aquilo quando sente Teka lhe puxando pelas mãos. Os olhos da garota estavam vidrados, com medo, seus olhos fitavam o lado oposto. Fitavam o caminho por onde estavam seguindo.
- Isso é assustador. – Ela diz com os lábios trêmulos.
- É estranho, muito estranho, mas não chega a ser assustador. Um Magricela de um Pierrot retardado rindo igual hiena no cio e sua risonha namoradinha submissa. Que mal esses imbecis poderiam nos fazer? – Ronaldo conclui.
- Não. Não é isso! – Ela continua assustada – Olha o relógio da igreja. Ele está na mesma posição de antes... Ou melhor... Nós estamos no mesmo lugar!
- Isso é impossível! – Esbravejou Ronaldo tentando convencer a si mesmo que Teka estava errada. – Nós andamos umas duas ou três quadras. O relógio está mais perto, e estava mais para a direita. Com certeza!
Com exceção de Katy que ria e resmungava palavras ininteligíveis defronte uma loja qualquer, todos olharam para Joker que, pensativo, confuso, mantinha os olhos fixos no relógio. Esperavam ele pronunciar algo. O Coringa nada dizia. Até que Teka teve que intervir em sua concentração.
- Então Joker? Você foi o primeiro a ver as horas. O relógio está ou não no mesmo lugar?
- Não sei! Ele estava um pouco mais para a direita, eu acho. Não tenho certeza. Caralho! Há duas horas que estou bebendo e fumando sem parar, vocês acham que vou prestar atenção em posição de relógio? Essa porra estava mais para a direita, ou esquerda. Sei lá.
- Eu estou vendo ele ir pra direita... Ir pra esquerda... Direita... – Disse Katy, completamente fora de si.
- Tu ta chapada, Katy. Volta lá para o canto e continua falando sozinha. – Joker esbraveja apontando com o braço o local onde a amiga, poucos minutos antes, resmungava sem parar.
- Eu não! Cansei de chamar eles, mas os Baianos não acordam...
O grupo levanta os olhos para ler o nome da loja onde Katy estava: Casas Bahia.
- Ixi! Essa está “pra lá de Bagdá”. - Disse Teka.
Normalmente eles ririam do estado da amiga e de suas viagens alucinadas. Também estariam viajando com ela, mas não tiveram tempo de se drogarem o suficiente e todos aqueles fatos estranhos acontecendo os trouxeram, de forma súbita, de volta à lucidez.
- Não adianta ficarmos aqui parados. – Teka voltou a falar – Vamos para o bar do veneno, talvez seja mesmo maluquice minha isso. – Ela olha novamente para o relógio da torre e abana a cabeça repreendendo a si mesma por aquela idéia ridícula sobre estarem no mesmo lugar. – Devo estar ficando maluca, só pode ser isso.
O grupo segue em frente. Vários pensamentos passavam pelas suas cabeças. Duvidavam de suas sanidades. Calculavam e se culpavam pela quantidade de drogas e bebidas que já haviam consumido, não naquela noite, mas em todas as noites somadas. Talvez a vida ilícita e de excessos estivesse cobrando seu preço naquela noite. E tudo fosse apenas efeito do excesso de drogas alucinógenas que usaram nas várias baladas que perderam a razão.
Joker levava Katy pelo braço e os outros o seguiam em absoluto silêncio. Percorreram novamente exatos dois quarteirões. Os olhos estavam todos atentos no relógio da igreja e ele se aproximava conforme caminhavam. Tudo correndo dentro da normalidade esperada. Teka teve certeza de seu engano.
Quando dobraram a esquina Joker estacou no lugar.  Sua face empalideceu. Suas pernas tremiam. Soltou o braço de Katy e o pavor que lhe assomou o tirou completamente de si.
Seu estado súbito de extrema fobia de algo ainda desconhecido aos demais fez com que todos se apavorassem. Teka berrava desesperada para o amigo dizer o que ele estava vendo enquanto chacoalhava o braço deste com força. George e Ronaldo giravam a cabeça para todos os lados, procuravam pelo relógio, mas de onde estavam não conseguiam avistá-lo. Estava em alguma direção, encoberto por uma daquelas casas ou lojas. Os dois rapazes cessaram a busca pela torre quando ouviram um “ai meu Deus” soando da boca de Teka. Joker, com o braço levantado, indicava com o dedo uma loja localizada no meio do quarteirão por onde passariam. Na placa, um nome: Casas Bahia.
- Nã... Não pode ser! Não pode ser a mesma loja, gente! – Ronaldo não quer acreditar no que seus olhos lhe exibem – Se fosse a mesma loja, o Relógio estaria... – Ele diz caminhando célere até o meio quarteirão – Ali! ... Não é possível... – Empalidece, atônito. Ronaldo congela no instante em que, defronte a loja, olhou por cima das casas.
- O quêêê? Fala Ronaldo, pelo amor de Deus, o que você está vendo? - Desespera Teka.
- A torre, a maldita torre do relógio está ali, no mesmo lugar! Não pode ser...
Joker, desperto do transe fóbico, junto com George e Teka se apressaram para conferir o absurdo que Ronaldo dizia enquanto este disparou n’uma corrida insana pelo mesmo trajeto que já haviam percorrido antes. Correndo e gritando como um louco – Não pode serrrr. Não Pode ser... Eu não estou loucoo- E no momento em que os três amigos puderam ter visão parcial da torre da igreja, Ronaldo estava dobrando a esquina dois quarteirões abaixo para ressurgir na esquina anterior. Ele passou por Katy, que sentada na sarjeta vomitava nos próprios pés, sem dar a mínima atenção à amiga e seguiu aos berros ensandecidos em direção aos outros três, que sem se moverem, surgiram à sua frente.
- Nãooo, vocês não podem estar aquiiii!!! Não podem. Não podem...
A gargalhada insana novamente fora ouvida provocando uma explosão de fúria em Ronaldo que se virou imediatamente, ameaçando partir na direção do maldito Pierrot, mas foi contido pela mão firme de Joker em seu pulso fazendo-o parar repentinamente. Os três amigos novamente olharam para a face atormentada do Coringa. Ele não olhava para a esquina em que desaparecerá Pierrot e Colombina, ele olhava para a outra esquina...
- Katy... Onde está a Katyyy??? - Ele grita.
- Acabei de passar por ela. Estava ali vomitando...
Antes que Ronaldo terminasse a frase, Joker sai correndo sendo seguido por seus amigos, correu em direção à esquina que deixara a amiga passando mal. Olharam longe na rua por onde vieram, e até onde seus olhos alcançaram, não avistaram nem um sinal da garota.
Novamente o Pierrot se faz ouvir em sua gargalhada sarcástica. O grupo olhou para o outro lado, e já longe estavam o sinistro casal de foliões, e Colombina com o pescoço totalmente voltado para trás, não desviara o olhar dos jovens enquanto se distanciavam. Ela sorria, cínica, irônica. Colombina sorria.
Na certeza que aquele estranho casal tinha completa culpabilidade no desaparecimento de sua amiga Katy, os quatro se puseram a correr e bradar com fúria no encalço de Pierrot e sua amante Colombina.
Corriam, e, quanto mais corriam, mais o casal se distanciava até desaparecerem no dobrar de uma esquina.
Ao repetirem o trajeto na perseguição do sinistro casal. Os quatro amigos se depararam com um enorme casarão colonial, a cerca de uns 50 metros distante deles, d’onde a canção e os risos descontrolados entoavam de seu interior evidenciando que ali estava sendo palco de toda luxuria e promiscuidade digna de um verdadeiro baile carnavalesco.
Não havia mais nenhum sinal do casal na rua. O único movimento acontecia no interior daquele velho casarão...
- Eles entraram ali! – Afirmou Joker com tamanha firmeza em sua voz que ninguém no grupo fez sequer menção de questioná-lo.
Se dirigiram receosos, passos lentos, a euforia da perseguição havia cedido lugar ao medo e a ansiedade. Caminhavam se encostando uns nos outros como se buscassem por amparo e proteção.
Quando a velha porta de madeira do casarão surgiu detrás da pequena mureta que o encobria novamente a fúria tomou conta de Joker e Ronaldo, ao avistarem a porta de ébano e ao seu lado um corpo caído.
- Katy...
Correram ao socorro da amiga. Enquanto Teka se certificava que Katy estava apenas desacordada novamente ouviram o som esganiçado do maldito riso vindo do interior do casarão... O Pierrot gargalhava.
- Vamos pegar esse filho da puta! – Braba Ronaldo odiosamente.
- Calma! Tem algo de errado. Essa casa não existia aqui. – a percepção de Teka fora tardia. A ira que assolava os três amigos os ensurdeceram para a sua advertência.
Ronaldo forçou a maçaneta da porta encontrando a mesma destrancada. Os rapazes entraram no casarão dispostos a quebrarem todos os ossos do corpo do palhaço feliz e de quem mais se colocasse no caminho.
A porta se fechou atrás deles. Os risos cessaram, a música parou. De repente fez-se mórbido silêncio no interior do velho casarão.
- Ai meu Deus, algo está errado... Algo está errado...
Teka, apavorada, sussurrava repetidamente para si, segurando as mãos da amiga desmaiada.
O silêncio foi breve, mas para Teka ele pareceu eterno. Segundos perenes de sofrimento e angustia e o silêncio fora quebrado de forma aterradora. Gritos de extrema dor eclodiram de dentro do casarão causando calafrios por todo o corpo da jovem. Eram as vozes, os gritos de seus amigos. Gruíram uníssonos e novamente se fez silêncio. Teka, sem pensar em conseqüências e circunstâncias, adentrou ao casarão com o débil intuito de salvá-los de um perigo desconhecido por ela.
Teka entrou. A porta, sozinha, se fechou atrás de si. A jovem se viu num enorme salão festivo, completamente vazio. O local era bem iluminado por um enorme lustre de cristal pendurado no centro e dezenas de luminárias espalhadas pelos pilares que rodeavam a imensa sala. A iluminação, os pisos e azulejos, Teka sentia como se tivesse quebrado a linha do tempo e retrocedido direto aos anos vinte.
Não se deixando dominar pela exuberância do lugar, manteve o pensamento nos amigos em apuros e o medo a manteve em alerta, caminhando a passos cautelosos, ouvidos e olhos atentos para todo sinal ou som que pudesse indicar a localização dos três rapazes.
Quando a jovem se encontrava exatamente no centro da rosa de Sharon que os pisos desenhavam, as luzes se apagaram completamente e reacenderam n’uma fração de segundos, um flash rápido como um piscar de olhos, mas tempo suficiente para todo o terror surgir do solo aos pés de Teka e fazer-lhe quedar em gritos e choro histérico. No primeiro piscar de luzes Teka pode ver em pé em sua frente, na extremidade da rosa de Sharon, Colombina sorrindo maquiavélica e espalhados pela sala haviam outras pessoas fantasiadas. Todas riam em deboche.  No segundo piscar de luzes, o horror a engoliu, Teka se viu no centro da estrela de Baphomet desenhada à sangue, ornamentada por dezenas de velas vermelhas, viu seus amigos deitados aos seus pés, com os peitos desnudos e a pele deflorada formando a mesma estrela gravada numa ferida mortal no peito dos três jovens. E tudo desapareceu quando a iluminação voltou. Em pânico Teka olhava ao redor, aos seus pés e via-se apenas cercada pela bela rosa de Sharon.
A gargalhada do Pierrot soou de suas costas, Teka virou-se apavorada... As luzes se apagaram.
Um grito de horror tão estridente que retumbara como se saísse dilacerando a garganta de quem o gritara irrompeu a madrugada fazendo Katy despertar de seu estado entorpecido.
- Teka...
Ela levantou-se cambaleante. Sentia como se o mundo ao seu redor girasse. Viu uma porta aberta e sabia que o grito de sua amiga soara de algum ponto no interior daquela casa.
Mal ultrapassou o limiar da porta e a cena que encontrou no interior, no centro de um enorme salão de festas, lhe causou um pavor comensurável, sua garganta quis gritar, sua voz não saíra. Suas pernas trêmulas estacaram-se no lugar. Boca e olhos arregalados em pânico aterrador. Deitados no centro do salão estavam os quatro corpos de seus amigos devidamente posicionados com os pés virados para o centro de um circulo formando o desenho de uma cruz com seus corpos. Os braços abertos em posição redentora exibiam nos peitos desnudos a pele dilacerada como se um escultor das trevas, usando de um punhal, talhasse em suas carnes a estrela de Baphomet. Velas vermelhas os cercavam contornando outra estrela desenhada com o sangue das vítimas no piso frio.
Desfeita do choque inicial, Katy , com a mão na boca e olhos encharcados de lágrimas, caminhou vagarosamente na direção dos cadáveres de seus amigos. Quando olhou o rosto de Teka, ali sem vida. Vendo que a vida da sapeca e jovial amiga fora tirada de forma tão cruel, sua garganta se desprendeu e um grito de profunda melancolia irrompeu e seus joelhos dobraram em prantos.
O grito de Katy chamou a atenção de uma viatura policial que fazia a ronda nas proximidades. Se dirigiram com rapidez para o quarteirão de onde viera aquela lamúria e intuíram que só poderia ter vindo do interior das ruínas do velho casarão abandonado do Visconde de Rio Claro, com fama de mal assombrado e freqüentemente usado como antro sujo para viciados, ladrões e estupradores, o mesmo estava condenado a demolição com a data para a feita sendo adiada dezenas de vezes pelos conservadores políticos locais.
Os dois policiais de armas em punho invadiram o casarão abandonado encontrando uma jovem ajoelhada ao lado de quatro cadáveres, n’uma evidente cena de ritual satânico.
Encaminhada a delegacia e posteriormente interrogada, não relatou nada que pudesse esclarecer aquela terrível chacina. Os exames toxicológicos denunciaram o uso de álcool e drogas em demasia. Com os fatos contra si, Katy foi presa, julgada e condenada pela morte dos amigos. O advogado de defesa alegou que o ato fora cometido inconscientemente devido ao uso excessivo de LSD por sua cliente na noite fatídica.
Katy foi condenada a 20 anos de detenção e internação imediata numa clinica de recuperação de viciados, devidamente monitorada por policiais.

...

Um ano se passou. Um pequeno grupo de amigos dirigia-se em direção aos blocos carnavalescos. Completamente bêbados, riam e cantarolavam marchinhas antigas enquanto zombavam uns dos outros e gargalhavam com eufórica alegria quando outra gargalhada, mais aterradora do que as suas, os fez congelarem de espanto. Viraram-se para conferirem de onde viera o inusitado riso e viram cruzando a rua de um lado ao outro, um jovem fantasiado de Coringa e uma garota que, fantasiada de sinhá moça, saltitava e sorria enquanto o seguia.

Um Conto de Márcio Renato Bordin
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Locução Proverbial





Estória livremente inspirada na idéia do conto “O bebê da Tarlatana Rosa”, que faz parte da obra Dentro da Noite, de João do Rio (1881 – 1921)

Não rara são as vezes que embriagamos o espírito durante a travessia desta alameda pavimentada de sugestões insinuantes! De caráter, mesmo, perfunctoriamente lascivo! Raro, talvez, as que perdemos a estenia da razão, e passamos a viver a existência do retardo. Mas elas, aqui e ali, espreitam e, decididas, dão-nos as mãos.
Produto do século XIX, de uma era de prosperidade e paz a uma sociedade, para maior festa de rua do mundo! Cafarnaum contemporâneo de brasas desejosas! Semente, ontem e hoje, de ensejos cobiçosos, que serpenteiam pelas vielas mal iluminadas da nossa consciência a fremir libertinamente!
 É mister acrescentar, numa espécie de digressão, creio, que algum, ou outro, vocábulo passa-me por pedante, conquanto esta impressão não perturba-me, ao contrário. Acusado, por vezes, de pernóstico, não faço-me de rogado, e mesuro com um breve sorriso, onde presto um laivo de cretinice, que serve, deliberadamente, para cimentar tal argumento. Sarcasmo e vitória notar-se-ão sempre nesta mancha! E nesta data, tais predicados parecem recrescer, na explicita intenção de seduzir quem quer que se impressione com. E não são poucos, e poucas, aqueles que apaixonam-se agudamente por demonstração orgulhosa de sapiência e lascívia.
Todavia, há tolerância, tácita ou escandalosa, a tudo. Ao chegarmos à porta aberta do precipício, é comum entrarmos aos tropeços e logo tombarmos com o rosto sendo o primeiro a esborrachar-se no chão frio e rijo do apertado cômodo do limite. Pois bem, desta feita, o olhar sardônico e obliquo entestou-me resolutamente!

***
 Apresentou-se como bela e irresistível, com toda a licença da redundância destes dois artifícios, à olhos com sede. E, sem pestanejar, joguei-me em seus domínios, julgando impreterível sabê-la por completo. Existe mesmo, nas ocasiões onde paixões são as únicas anfitriãs do espetáculo que se arma em nossa alma, uma centelha de natureza quase divina a nos iluminar o caminho trêfego que se mostra diante do objeto que fulgura desejo. E os costumes da ocasião intensificaram a fantasia que ensejara esta minha consideração!
Uma, duas, três, quatro. A matemática perdia sua lógica à medida que nós pulsávamos pele fita em obséquio do êxtase, da mesura que nasce e morre faminta na inconstância do desejo. Analisávamos com minúcia cada reentrância do relevo que dava forma àquilo que usávamos para refocilarmo-nos no gozo das sensações que nos assaltava. Odores aziagos imiscuíam-se em aromas floris, levando-nos a um passeio singular, repleto da retórica peculiar do querer avarento e egoísta. Aquele próprio do vulgar hedonismo que logrou há muito moradia em nossa alma. Fulgurávamo-nos no seio da luxúria que parecia sempiterna, malgrado a malsina sibilina que sussurrava-me, como um alerta olvidado forçosamente por nossas atitudes tão resolutas. Tal tácita denuncia, se empregasse esforço mais hercúleo, se meu inconsciente tratasse estas extraordinárias tarefas com mais respeito, estaria eu, quem sabe, inteiro na empresa que dedico-me neste momento. Contudo, a natureza insólita de uma série de vicissitudes dos autos que se apresentam rutilantes, fazem-nos mais estúpidos do que legisla o comum, o ordinário das leis naturais. Assim, despencamos para a miséria do jugo lúrido de tudo aquilo que não entendemos.
A tolerância antes citada apresentou-se, em seu termo, como escaramento medonho. Esfolou-me a coragem como a rés é antes de terminar em nossas mesas. Hoje pago a dívida contraída com a corrupção da carne sofrendo a discrepância do ditame, redundantemente zombado pelo egrégio terror que opugna-me as noites e os dias. Passo a ver os orifícios escuros que desfibram-me. Sinto o calor que exalavam a denegir tudo aquilo meu que tocavam, transformando-me num fantasma de covardia e pavor. Vejo aquilo que se convenciona a parte externa do sistema respiratório deixar seu natural endereço e acompanhar-se de um riso brutal, rouco e bilioso. A chaga intumescida cospe a aflição no vão contíguo que a liga ao lábio superior, criando a danação demoníaca perfeita. O dantesco ataca crispando-me o espírito e tudo o mais que resulta das suas misturas.
Despencamos.

***

Levanto-me religiosamente neste horário sem compreensão, uma vez que o sono insubordina-se ao levantar, ao que quer que seja o afazer. Inútil tal resistência da fisiologia que me lembra das suas necessidades e de como o corpo sofrerá as conseqüências. Ergo-me e cravo a direção na imagem que se estampa na lisa superfície que reflete a luz sobre ela recendida. Quando a claridade, permitida pela cortina que se afasta com o empurrão da brisa que entra álgida pela janela aberta, a deixar as luminárias presas aos postes, empresta um contorno mais nítido ao reflexo em minha frente, entendo o momento. Lembre-se, homem de inconseqüência! Lembre-se!
Meu rosto esboça, naquele espelho, um sorriso carregado. Mas a dor barafunda assim que enxergo as fossas nasais, lutulentas e repletas dos seus necessários mucos. 

Um Conto de Victor Meloni
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As Cinzas da Quarta-feira




I

        Ana despertou com um sobressalto. O baque seco das baquetas contra a pele esticada dos repiques parecia ecoar diretamente em seu cérebro, era como se sua cabeça fosse um dos instrumentos atacados com ferocidade pelo espírito contagiante da época. Uma fisgada lancinante apertava sua nuca, mas a dor não se fixava apenas nesse ponto, ela se espalhava, dominante, por cada articulação e músculo.
        Com um redemoinho afligindo-lhe a mente, e com um torpor se espalhando como uma onda pelo corpo, a capacidade de compreensão acerca da situação ao seu redor ficava muito comprometida. Ela iniciou uma contagem mental, enquanto respirava pausadamente. Assim, aos poucos, a realidade começou a se tornar mais nítida. Mas, diferentemente do que se poderia imaginar, a clareza não lhe trouxe o conforto esperado, pelo contrário, a nova percepção chegou acompanhada de um incômodo tão ou mais intenso do que as alfinetadas já presentes. Ana estava presa. Irremediavelmente encarcerada na própria casa.
        O som estridente das marchinhas, o entusiasmo em forma de gargalhadas, a fúria dos tambores. Não havia qualquer dúvida, o calor do bloco arrastava uma multidão pelas ruas. Ela conhecia aquela energia, durante toda a sua existência vivenciara ano após ano cada fagulha do reinado de Momo. Ana respirava carnaval. Seu coração palpitava no ritmo dos tamborins. Não havia no mundo algo que pudesse preenchê-la tão intensamente quanto a perspectiva que cercava os dias de folia. Pelo menos era isso o que ela pensava até conhecer Ezequiel, nesse mesmo período, há um ano.

II

Naquela noite, Ana rodopiava no centro da quadra de ensaios. O pavilhão de três cores, pelo qual ela nutria incondicional devoção, tremulava com intensidade sob seu poder. A garota empunhava o mastro da bandeira como se tivesse a capacidade de tornar em vida o tecido inanimado.
        Ana era apenas a segunda porta-bandeira da agremiação, mas, naquele momento, seu desempenho a tornava o centro das atenções, o motivo de todos os olhares. Foi nessa amálgama de rostos que seus olhos de ébano cruzaram com os traços robustos, porém cativantes, do desconhecido que mudaria para sempre sua vida.
        O vigor dos seus braços pareceu fraquejar. O gingado das pernas travou em descompasso. Se estivesse em plena evolução sob as luzes do espetáculo, certamente teria comprometido o alcance da nota máxima.
A partir dali, Ana e Ezequiel não mais se separaram. O casamento tornou-se a conseqüência natural de um magnetismo tão avassalador.
Com a alegria plena no coração, a porta-bandeira brilhou intensamente na avenida. A leveza da alma a conduziu em movimentos perfeitos, a felicidade transbordava pelos poros. A promoção ao primeiro posto, promessa para o carnaval seguinte, estava mais do que garantida.

III

Dizem que o ano só começa, de fato, depois do carnaval, mas para Ana e Ezequiel, uma nova vida havia começado. Porém, o castelo começou a ruir quando o rapaz, por conta de novas convicções, passou a rejeitar e, até mesmo, condenar conceitos e atividades que faziam parte do dia-a-dia do casal.
        - Entenda, Ana. Os feitiços e as tentações da esfera mundana deturpam e corrompem a grandeza da alma humana.
        - Eu entendo, meu amor. Mas precisamos ser mais flexíveis, pois nem tudo pode ser tratado a ferro e fogo.
        E, realmente, ela entendia os motivos do marido: a decepção com as futilidades, o egoísmo cru perante o próximo, ele chegara a um limite instransponível. Caso não transformasse a própria existência, a espiritualidade, certamente entraria em colapso. Mas, ao mesmo tempo, Ana se sentia pressionada pela lâmina afiada do conflito interior. Não era fácil abrir mão dos sonhos, principalmente quando eles eram arrancados do seu peito por alguém que tanto amava.
        - Ferro e fogo, você diz. Com a rigidez do ferro, devemos dobrar os joelhos perante a força maior que move o universo, enquanto a grandeza do fogo traz a purificação do espírito. Entenda, Ana. Não há salvação sem esforço. Não há recompensa sem sacrifício. Tudo aquilo de que abrimos mão hoje, retornará em dobro quando o mundo mudar, quando a carne se tornar cinza e a alma se elevar.
        Não havia maneira de contornar a situação. Ezequiel parecia irredutível em seu novo modo de agir e pensar. De nada adiantava argumentar, apelando para o fato de que ele já a conhecera assim, ou que o ambiente e os hábitos eram comuns aos dois. A ela só restava se rebelar contra a imposição de algo que não lhe pertencia em essência, ou aceitar tudo em nome da nobreza do sentimento que nutria. Ana escolheu o amor. E, resignada, resolveu mergulhar com a mente aberta nas possibilidades que se abriam em sua vida.
        A rotina mudou. Atos, vestes e comportamento se adaptaram. O brilho dos paetês foi enterrado na escuridão fria dos armários. No entanto, no percurso inglório dos longos meses, lágrimas tristes insistiam em rolar pela maciez do rosto miscigenado. Ana sofria em conformada mudez, mas, às vezes, até mesmo o silêncio pode alcançar quem lhe escute.

IV

        A garota olhava para a noite, ela gostava daqueles momentos de solidão, não que a companhia de Ezequiel lhe desagradasse, longe disso, mas estar naquele local, defronte para o vazio, era a única oportunidade em que podia pertencer a si mesma. Ela podia ouvir seus pensamentos, podia ouvir muito mais...
        No início, Ana não julgou a sonoridade trazida pela brisa morna como uma voz. Lembrava, sim, um sussurro, mas não algo que pudesse se originar de uma garganta humana. A perfeição que emanava em ondas superava facilmente qualquer nota, até mesmo as executadas pelos melhores tenores.
        Como era bom ouvir aquela melodia, como era bom ouvir seu nome proferido pela boca de um anjo...
        - Ana! Ana! Meu Deus, Ana! Saia daí! Saía daí!
        Revestido pelo desespero, Ezequiel gritava enlouquecido. Com a urgência nos pés, ele tentava vencer a distância até a janela. A mulher, em aparente transe, se esgueirava perigosamente pelo beiral. O contraste da voz do marido, como um samba atravessado, quebrou a cadência que conduzia o corpo esguio com a leveza das plumas. Ana despertou, e seu tronco girou como num bailado improvável. A queda parecia certa, mas os braços providenciais enlaçaram-na no ar.
        - O demônio, Ana. O demônio estava em você. Ele quer fazer morada em seu coração. Não deixe que ele vença, Ana. Não deixe que ele vença.
        Ezequiel segurava a cabeça da mulher com as duas mãos. Ele a sacudia como se quisesse arrancar a força maligna com o poder dos gestos. Ana chorava, enquanto a saliva do marido espirrava em seu rosto e as palavras de ordem espancavam seus tímpanos.
        Os dois se abraçaram, o suor como argamassa. Ela, sem entender exatamente o que se passava. Ele, com a convicção revestida pela fé. Em comum apenas a certeza acerca de suas próprias verdades.

V

        Os dias seguintes foram terríveis para Ana. Por mais que ela tentasse manter a normalidade, o episódio da janela parecia conspirar contra sua vontade. Ezequiel, em toda e qualquer oportunidade, a utilizava como exemplo vivo do poder de persuasão do mal. E, para piorar, ela mesma passava a duvidar se não estaria sendo alvo da ação nefasta das trevas. Mas não era exatamente isso o que a incomodava. Ela perdia o sono por sentir falta daquela sensação, daquela voz que a fizera flutuar, como se estivesse em plena evolução na avenida, sob os aplausos da multidão.
        O carnaval se aproximava, e com ele a agitação no coração da porta-bandeira. Era impossível domar a ansiedade. Se ao longo dos meses a hesitação brincou com seus sentimentos, com a proximidade da desejada data, a chuva de chamadas na televisão, a agitação nas ruas, os preparativos de um modo geral, trataram de por uma libra a mais na balança. Ela estava decidida, perdera o posto de destaque na agremiação, mas não deixaria de cruzar a passarela, mesmo sob os protestos e os problemas que inevitavelmente surgiriam.
        Um sorriso espontâneo brotou em seus lábios, mas, com a mesma naturalidade com que surgiu, a expressão se desfez quando seus olhos encontraram a reprovação enigmática no semblante do marido. Ezequiel a conhecia bem. Ele entendia com perfeição as particularidades de sua alma. Não foi preciso que Ana dissesse uma só palavra, ele já sabia o que ela pretendia.
        - Como você pode pensar uma coisa dessas, Ana? Como? Essa é uma festa profana, uma exaltação ao demônio! Você não vai sair de casa. Vai ficar trancada pelos próximos quatro dias. Entenda, é para o seu próprio bem.
        - Não, Ezequiel, não é. É uma festa do povo, uma manifestação legítima. A maldade está no coração das pessoas, e eu não carrego nada de ruim em meu peito, posso lhe garantir. Algumas horas, meu marido, apenas algumas horas, não te peço mais nada.
        Com o coração partido, Ezequiel suspirou. O dorso de sua mão direita rasgou o ar encontrando o rosto delicado da garota.
        - É para o seu próprio bem. Daqui você não sai.
        Ana tentou se debater, mas contra os músculos do marido ela nada podia fazer. Inconformada, a mulher foi arrastada pelas escadas e jogada na cama. O estrondo da folha de madeira e o clique seco da maçaneta doeram muito mais do que a bofetada. Mas, o pior ainda estava por vir. Ela mal pôde acreditar quando viu Ezequiel, a pessoa que mais amava no mundo, irromper novamente pelo quarto. Ele trazia uma longa corrente nos braços, além de um par de cadeados. Ao exibi-los, sua voz soou muito mais fria do que o metal que ela logo experimentaria na pele.
        - É para o seu próprio bem, Ana. Aqui você estará segura. Estará livre das tentações. – Ele não se cansava de repetir, enquanto a preparava.
        Como uma serpente ardilosa, os elos abraçaram um dos esguios tornozelos da garota. Ela tentava se lembrar de algum verso que pudesse retratar o que sentia, mas não havia poesia capaz de traduzir tamanho sofrimento. Ao ver o marido se distanciar, Ana, num último esforço, tentou correr em sua direção. Mas o enlace apertado não a deixou ir muito longe, a liberdade limitada tratou de lembrá-la de sua existência. O corpo quis seguir, mas a perna não deixou. Durante a queda, os braços em movimento buscaram apoio numa das prateleiras fixadas à parede, mas o resultado obtido correspondeu ao vôo de um buquê de rosas plásticas, além do inevitável encontro entre a delicada cabeça e a cerâmica do jarro.
        Ana sentiu os lábios frios da escuridão beijando-lhe a face, o afago contrastou com o toque morno do filete rubro que escorria. O mundo girava ao seu redor. A porta já estava cerrada quando as pálpebras não suportaram a pressão do próprio peso...

VI

        Sua cabeça latejava. Lá fora, os tambores, chocalhos e tamborins atiçavam o canto desencontrado e o grito dos foliões. Já era noite, mas não uma noite qualquer, era carnaval. Demorou para que ela encaixasse o raciocínio, mas a certeza em sua perna e o sangue seco na testa não deixavam dúvidas: ela estava presa. Irremediavelmente encarcerada.
        Sentada no chão, Ana abraçava os joelhos na esperança de que a solução lhe oferecesse uma das mãos.
        “Ana... Ana...venha comigo...”
        Mesmo com toda a algazarra carnavalesca, a garota tinha a impressão de conseguir destacar a sonoridade familiar dentre o coro de inúmeras vozes. Não, não era lá de fora que vinha a voz. Ela lhe falava diretamente à cabeça. Como era doce aquele timbre...
        “Ana...eu sou a liberdade que você busca...venha comigo, vamos sair daqui...”
        - Onde você está? Onde você está?
        “Aqui, Ana. Sempre estive aqui. Venha comigo...venha comigo...”
        De alguma forma estranha, a voz insinuava a direção em que a garota deveria olhar. Tremendo dos pés à cabeça, ela tentava se esquecer da dor. Suavemente, Ana arqueou o corpo, deixando o rosto bem rente ao chão. Seus olhos buscavam o ponto específico, enquanto os dedos tentavam desobstruir o caminho bloqueado pela colcha. O alívio estava lá, envolto pelas sombras sob a cama. Ana sorriu...

VII

        Ezequiel tentava romper a barreira formada pelos foliões. Ele maldizia a si mesmo por um dia já ter sido um daqueles perdidos, um fraco sem orgulho próprio. Ao dobrar a esquina, mesmo irritado, foi impossível não notar a imagem que cruzou, numa fração de segundo, a brecha entre as cortinas, no quarto do andar superior de sua casa.
        O coração disparou. As pernas bambearam. Para enfrentar aquilo, ele precisaria bem mais do que a própria fé.     O homem saiu em disparada, empurrando os inúteis que se aglomeravam pelo caminho. Ele tinha a impressão de que todos gargalhavam dele, zombavam do seu desespero, mas não havia tempo a perder, precisava salvar sua esposa.
        Com a urgência a lhe chicotear, ele ganhou as dependências da garagem. Seus olhos dançavam de um lado para o outro, nada parecia servir a seus propósitos, até que vislumbrou um achado sob as sobras de caixas de papelão.
        De posse do que queria, Ezequiel chutou a porta e cruzou o corredor principal, mas antes de saltar de dois em dois os degraus da escadaria, ele ainda passou pela cozinha, talvez só tivesse uma chance, pensou.
        Chegando ao quarto, foi assaltado por uma visão muito mais aterradora do que jamais poderia supor. Sua esposa, sua amada Ana, estava sob o domínio de uma força nefasta. Uma estrutura de escamas negras e reluzentes parecia ter se apoderado do corpo da mulher. Dentes afiados mordiam-lhe a cabeça, asas abertas, como as de um imenso morcego, exibiam o domínio dos limites. Era o demônio, não havia como negar. E ele empunhava uma lança, cujos dentes aguçados mastigavam retalhos de pele humana.
        Ezequiel não se intimidou, mesmo diante de tamanho horror. A força de suas palavras expulsaria a maldita serpente do corpo da esposa. O demônio resistia. Ana parecia querer se comunicar, mas de sua boca não saia nada compreensível aos ouvidos do homem. Só havia o sibilar hediondo do idioma dos infernos.
        A besta era forte, muito forte, ela se negava a largar o corpo da mulher. Ezequiel caminhou em sua direção, mas o demônio avançou, tentando agarrá-lo. Não havia jeito, a carne mortal já estava comprometida, mas a alma ainda poderia ser salva.
        Com lágrimas escorrendo pelos sulcos do rosto, o homem atirou para longe o lacre do recipiente. Ele precisou de muita determinação para despejar o líquido sobre o corpo possuído. O demônio urrava por conta do contato úmido. Com a chama nas mãos, Ezequiel suspirou antes de atirar o palito.
        - A grandeza do fogo traz a purificação do espírito.
        As labaredas consumiram a mescla estrutural dos corpos unidos. Os guinchos de dor da criatura se espalhavam pelo ambiente, enquanto ela se debatia sem conseguir sair do lugar.
        - Quando a carne se tornar cinza, a alma se elevará.
 Ezequiel observava, extasiado, a vitória. A voz da criatura era horrenda...era bestial...era...era...familiar?
- Ana! Ana! Por Deus, Ana! O que eu fiz? O que eu fiz?
Não era um demônio diante dele. O que seus olhos nublados viram não passava de uma fantasia de lantejoulas reluzentes. Mesmo devorada pelo fogo, Ana não largou o mastro com a bandeira. Besta e lança ardiam em chamas. Seu delírio respondia pelo sonho inofensivo de uma amante do carnaval. Sua voz interior clamava para ser ouvida...

VIII

Ezequiel havia terminado de incinerar o corpo da esposa. Diante dele, não havia qualquer sinal de salvação, só havia dor e nada mais. Ele não nutria sonhos ou projetos, como Ana. A sua própria maneira, tudo o que ele sempre quis foi zelar pelo que achava certo, pelo bem da família. Família esta que estava, literalmente, reduzida a pó. Mas ele poderia fazer alguma coisa por ela, mesmo que de forma tardia.
A escola cruzava a avenida. E, entre a chuva de confetes e serpentinas, uma nuvem cinzenta encontrava seu brilho próprio.
Ana desfilava, não como queria, mas enfim desfilava novamente. Mas Ezequiel não estava satisfeito, pois em sua mente confusa ainda pairava uma dúvida: Ele desejava saber se, em meio ao calor da bateria, alguém conseguiria perceber um estampido seco ecoando...
Naquele carnaval, as cinzas chegaram antes da quarta-feira...
     

Um conto de Flávio de Souza
4

A Mascaração (conto-delírio)






Estridentes, cacofônicos, tumultuosos, assim são os sons que envolvem os foliões venezianos na Temporada das Alegrias e Encantos Pueris, assim respira a Praça São Marcos em época de carnaval.
 Escondido no escuro solitário de uma gôndola emborcada, um anão respira fundo, olha para os lados mas antes de decidir a direção, suspende o pescoço estudando o cenário com a cautela de um ourives medieval: solitários embriagados de movimentos convulsivos esfacelam nas calçadas como fantoches desconexos, cavaleiros plumosos em cavalos imponentes escoltam damas emplumadas com a leveza de pássaros sonambúlicos, máscaras de gesso mascarando mulherengos incuráveis racham sob o grito e o peso de desejos reprimidos; e fora do seu campo de visão na Ponte dos Suspiros, escorada no parapeito como um manequim desarticulado, uma melancolia sustentada em duas pernas, carne e rugas, borra uma máscara de spray cinza-prata com lágrimas que jorram de cílios postiços como fontes de água clara: a idosa enxuga o rosto, vasculha o cenário, e em meio a danças, beijos, sorrisos e outras mascarações, grita para o policial: o Pierrot mascarado, é ELE!!
O anão agarra a bolsa e salta para outra gôndola estacionada como se sua vida dependesse disso.
Um ruído indistinto fere os ouvidos, mas antes de assimilá-lo por completo, um grito igualmente abafado porém mais distinto, o impulsiona para a calçada:
-PEGA LADRÃO!
Por entre plumas, pernas e danças o Pierrot pequenino serpenteia pela colméia humana como um pássaro na agonia do escape, enquanto um mosaico de botas, penas, fivelas e adereços confundem sua visão pressionando sua máscara de gesso, seu casulo de mascaramento e proteção, ferindo-a com cortes diagonais e lacerações com jorros de sangue branco; suspende o pescoço com movimentos cautelosos, mas antes que as retinas absorvam a totalidade dos detalhes, uma rede branca de máscaras e fendas captura sua visão e o aprisiona em olhos de abismo e sorrisos de gesso, encarando-o de cima como olhares curiosos refletidos em um espelho invertido:
- Pierrozinho pequenino da mamãe.- Grita a columbina alcoolizada.
-Coisinha mascarada do titio.- Sussurra no ouvido uma caricatura de ocultação.
-Comidinha pros meus filhotinhos, nhaaammm!!! – Gralha um mascaramento de corvo.
-Um...dois...três: pintorzinho de rodapé, baixotinho do pa-pai!!! Ahahahahah!!!- Declamam em uníssono, vozes de desprezo e preconceito em mascaramentos de rotina e naturalidade.
Fecha os olhos,
Ahahahahah!!!
Tampa os ouvidos,
Ahahahahah!!!
mas a estridência da chacota é maior que suas mãozinhas de gato nas orelhas,
Ahahahahah!!!
 O anão enrubesce em delírios de cautela e asfixia: abaixa a cabeça, respira fundo e quando as risadas sufocam pela marcha alegre do festejo, olha para os lados e nota a calçada alargar e ceder espaço para um novo fluxo de passos, pressões, olhares e novas mascarações.
“Preciso terminar o que...Sinto-me como...”
O pensamento sufoca por uma vaga de tremedeiras e calafrios que o envolve como uma manta de vapor frio, sente o corpo enfraquecer e a energia esvair.
“Que...Quem...”
Passa os dedos pela máscara trêmula sentindo as rachaduras alargarem e fundirem-se às fendas do nariz, olhos e orelhas.
“Quem... S...”
O corpo estremece no mesmo instante que gotas de sangue branco umedecem sua identidade em ruínas, escapando pelas fendas e rachaduras da face-que-não-é.
“...Sou”
O anão estremece e agoniza em meio a mascaramentos indiferentes de olhares dissimulados e risadas estridentes; fecha os punhos, enrijece as pernas e com um último resquício de energia arranca a ruína de gesso mascarando sua face.
“...Eu?”
Como um último suspiro agonizante, toca na antiga cicatriz, mas antes da escuridão clamar por território, sente uma descarga de energia invadir o seu espírito e penetrar em suas narinas como um bálsamo revigorante: o anão libera os pulmões expirando refluxos de alívio e leveza, e uma antes tímida e humana identidade privada agora domina sua persona pública, triunfa em sua máscara de carne.
“..simplesmente sou.”
Tateia sua face, pressiona a memória: “Casa, filhos, amigos, espelhos...”, lamenta sua vida, seus atos, roubos e mascarações.
“...não preciso terminar o que comecei.”
Respira fundo sentindo as curvas e textura de sua face; avalia a aderência do seu casulo de carne: a elasticidade da boca, a rigidez das bochechas, os sulcos da testa, e com a promessa de uma vida honesta e mascaramentos de outra natureza, arremessa a bolsa furtada no canal como se arrancasse uma máscara de auto-engano.
“Não preciso.”
O anão avalia as escolhas, pesa as possibilidades e decide ir em direção à feira pela área sul, distante dos sons, risos e desprezos ocultados em gessos multicores, mas seu parco senso de alerta não lhe atenta para o fato que sua estatura denuncia mais do que mascara e que sua máscara, para seus inimigos, nada mais é que uma ingênua tentativa de ocultação: o avesso do avesso.

                                                                     ***
Os sons distantes do festejo resvalam nas barracas e retornam aos ouvidos como indistintos farrapos sonoros, enquanto anúncios estridentes de vendedores ambulantes circulam pela feira como vampiros à procura de saciação; o anão absorve o cenário multicor como um artista obsessivo sugado em sua própria criação: uma fileira de tendas aqui, uma aglomeração de barracas ali, uma exposição de pinturas acolá, e da periferia da visão, ferindo o horizonte como uma chaga arquitetônica, uma estrutura angular semelhante a uma asa de morcego suga a atenção e o impulsiona ao seu objetivo: anda, suspira, corre, para, avalia... Encara a estrutura e estaca: olha para olhos como fendas, fendas como cavidades nasais, orelhas como asas e antes de ser sugado para dentro por uma boca abismal, percebe que a estrutura não passa de uma tenda em forma de máscara (ou seria uma máscara ocultada como tenda?).
Sugado para o casulo de incerteza e escuridão, para a essência da mascaração que era o interior da tenda, o anão apalpa as laterais à procura de apoio, mas a pressão exercida sobre a lona força um zíper que permite a entrada de um feixe de luminosidade natural que desmarcara a ocultação: cercando-o como tentações inconscientes, um semicírculo de prateleiras e estantes cede sobre o peso de perucas, maquiagens e máscaras...mascaramentos de estilo e feitura delicados. O anão, como se intoxicado pelo moribundo passado recente, é atraído para a mascaração como uma espiral imantada: águias, palhaços, columbinas, rufiões e outras frustradas tentativas de representações faciais o encaram com bocas de imã e olhares de tentação, mas o seu renovado senso de identidade lhe alerta para o perigo das escolhas: o passado que não é passado.
O anão suspende a cabeça e em um gesto decidido gira o corpo em direção à saída, mas antes do segundo passo sente algo flácido nos pés como uma bexiga murcha; corre para fora e examina o objeto no mesmo instante que uma lembrança petrifica suas órbitas e lhe mostra a realidade de sua condição: em suas mãos um espelho murcho, sua antiga máscara de carne sem a cicatriz facial que lhe serviu como passaporte para uma vida de roubos e mascaramentos; ao seu redor, símbolos de uma vida passada acendem uma recordação atentando-lhe para o fato que no centro da tenda mascarada, no âmago da mascaração, um dia sua face foi cortada em um rito de passagem para o crime, e no chão, esparramada como uma arraia flácida, a máscara de pele e músculos do seu antigo eu encarava melancolicamente a cicatriz brilhosa em sua nova face que pulsava convulsivamente como um criminoso coração das trevas.
O anão suspira e sente, mais uma vez, a energia esvair; toca na ferida facial, seu crime de carne, respira fundo e antes que sua antiga face lhe escape pelos dedos, agarra-a firme, suspende o pescoço e a coloca por sobre a cicatriz como uma lápide do seu passado de enganos e mascaramentos.
Abre os braços, respira fundo e com a leveza de uma pena flutuante, retorna para casa, para os filhos, para uma nova vida de desejos, acertos, conquistas e talvez...novas mascarações.


Um Conto de Ramon Bacelar
 

Dezembro 13 © Copyright 2010

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